sábado, 9 de julho de 2016

Construíndo Campanhas

A proposta oficial do marketing designa a esta poderosa ferramenta administrativa a obrigatoriedade da criação de necessidades dentro de um determinado mercado. Cabe então, a descoberta dos valores, produtos ou serviços que as pessoas desejam ou vão passar a desejar a partir da influência oportunizada pela mensagem publicitária.

Costumo dizer que se observada de forma pragmática a palavra Marketing assume sua tradução literal: mercado. Pode-se, então, afirmar que Marketing é o estudo do mercado. É uma ferramenta administrativa que possibilita a observação de tendências e a criação de novas oportunidades de consumo visando à satisfação do cliente e respondendo aos objetivos financeiros e mercadológicos das empresas de produção ou prestação de serviços.

Para Philip Kotler, marketing é “a atividade humana dirigida à satisfação das necessidades e desejos através de um processo de troca”.  Por tanto, aplicar esta teoria em campanhas políticas pode tornar o jogo mais interessante, apimentado e sagaz. Fazer o eleitor perceber que numa proposta partidária mais vale as novas idéias que às críticas ao trabalho antecessor pode ser uma agradável tarefa para marqueteiros que vislumbram um lugar ao sol nas próximas eleições.

Toda campanha política necessita de uma gama de criadores atentos a cada passo, palavra, gesto, ação! É preciso estar alerta: quase sempre em época eleitoral o político é muito cortejado e isso pode ser o primeiro passo pra derrocada. Paparicos demasiados vindos de assessores e pares partidários massageiam o ego e cegam o competidor. Opor-se ao cliente é uma necessidade profissional porque o objetivo é a vitória nas urnas e não o título de “belo”. Porém, grande parte dos candidatos não consegue abrir os olhos. Tampouco conhece, de fato, o produto que estão oferecendo, a ideia transmitida em seus discursos ou a resposta dos eleitores às suas propostas.

Em marketing político, a comunicação é como uma droga: em doses adequadas é medicamento, mas se mal utilizada um veneno fatal. Tomar a palavra a todo o momento banaliza a imagem do político. É preciso saber a hora certa de falar e sempre o que dizer. Antecipar-se ao entendimento do eleitor é a saída. O discurso correto traz nas entrelinhas tudo àquilo que o votante quer e precisa ouvir. O segredo da boa comunicação está nos detalhes e na moderação da oratória: a época das acusações e apelações politiqueiras ficou para trás.

Modernas campanhas eleitorais são multidisciplinares e envolvem profissionais de diversas áreas das ciências sociais e humanas aplicadas: antropologia, sociologia, política, economia, administração e comunicação social. Não existe mais espaço para improvisos baseados em intuição ou acordos políticos. A era do candidato centralizador virou história.

O mercado eleitoral competitivo é composto por dois agentes básicos: candidato e eleitores. O candidato deseja do eleitor informação e voto: informação para criar programas de atuação política e o voto para chegar ao poder e desenvolver o seu programa. Por outro lado, o eleitor deseja do candidato uma boa comunicação e o cumprimento das propostas e dos favores.

O candidato é o elo entre as causas públicas e o eleitor. É a primeira vitrine dos partidos, das ideologias, das estratégias de marketing e de seus ideais. O candidato é o conteúdo, é um contexto amplo entre partido, ideologia, vida e sua participação na vida social. Os fatores que compõem um candidato são:
    • Potencial próprio: sua capacidade de liderança, suas habilidades, sua comunicação, sua habilidade de discurso e seu carisma. 
    • Fatores Internos de pressão: Grupo político (partido ou facção) e grupo de financiamento.
    • Fatores Externos de pressão: Eleitores e adversários.
O eleitor é uma incógnita a cada eleição. Por isso mesmo, um dos problemas mais clássicos da ciência política é estudar e determinar o padrão de comportamento dos eleitores. Como ele pensa e decide o seu voto? Existe algum motivo para a escolha do seu candidato, quais aspectos que padronizam essa escolha? No Brasil, através de alguns estudos realizados sobre o comportamento do eleitor, chegou-se a um consenso de que existem três leis fundamentais de posicionamento do eleitor, são elas:
    • Lei da Indiferença: Onde o eleitor, quando entra na cabine eleitoral põe fim a um difícil processo de tomada de decisão. Nessa hora ele se lembra de Pelé, de Sílvio Santos, do macaco Tião e de outras personalidades de forte presença em sua mente, menos nos candidatos, porque para ele, é tudo igual, é indiferente votar nesse ou naquele candidato.
    • Lei da Procrastinação: Representa o máximo adiamento. Sempre que pode, o eleitor adia sua decisão de voto para o período mais próximo da eleição. Cerca de 90% das pessoas ao dirigir-se a cabine eleitoral, já tem o seu candidato consolidado, mas 10% ainda entram para votar, com muita dúvida, são os procrastinadores e, esses podem decidir uma campanha mais acirrada.Lei da efemeridade: As idéias e aspirações da sociedade obedecem a um ciclo de vida determinado (corrupção, ecologia, violência, etc.).
    • Lei da efemeridade trata dos ciclos das idéias e aspirações, onde elas nascem, crescem, se desenvolvem, desgastam-se e desaparecem. Um candidato começar a defender uma causa ou uma idéia, ecologia, por exemplo, num momento em que o mundo inteiro não fala mais no assunto, é aderir a uma moda que aos olhos do eleitor já está ultrapassada, porque o mundo está preocupado neste momento é com o combate à violência.
Construindo uma campanha

Toda campanha visa conquistar o voto que é influenciado por três componentes distintos: ideológico, político e eleitoral.
    • Político - firmado de forma direta, numa relação pessoal entre candidato e eleitor. Em cidades pequenas esse fator é grande e chega a 80% da motivação dos votos.
    • Ideológico - influencia apenas uma pequena parcela dos eleitores. O discurso de esquerda, de direita, do socialismo ou liberalismo afeta pouco mais de 5% do eleitorado, atingindo o máximo de 10% no mercado nacional. 
    • Eleitoral - representa o esforço concentrado de conquista do eleitor, é o campo de atuação do marketing político. Sua influência cresce com o tamanho do universo eleitoral. Chega a atingir até 70% das decisões de voto.
Comunicação Estratégica

Cada dia que passa às pessoas são bombardeadas por milhões de informações e estímulos. É claro que elas não conseguem processar e reter todas as informações, o que acontece é que a mente simplifica o que é recebido, aceitando apenas aquilo que interessa. A arte de se fazer ouvir, de se comunicar e persuadir está na identificação do caminho mais rápido para a mente. A pirâmide de Maslow, por exemplo, fornece pistas para descobrirmos o melhor caminho. Segundo ele as reações das pessoas aos estímulos são determinadas basicamente pelas necessidades básicas (fisiológicas) até as mais elevadas (auto-realização).

A mídia eletrônica hoje é considerada de o “segundo deus” por sua onipresença e seu poder de influência sobre as pessoas. Cada veículo tem uma linguagem muito específica, mas quando se trata de televisão, a linguagem se aproxima bastante do cotidiano das pessoas, de forma simples e direta. O candidato deve estar ciente de que está invadindo a sala de estar dos eleitores, é nessa hora o equilíbrio e a moderação, devem fazer parte de seu comportamento, pois é como se ele estivesse conversando com o eleitor em sua casa. Por tanto, fique atento e saiba como agir:
    • O marketing político está relacionado com a formação da imagem a longo prazo. É utilizado por pessoas e políticos que desejam projetar-se publicamente.
    • Já o marketing eleitoral é de curto prazo. As estratégias e as táticas de comunicação são montadas em cima de um ambiente vivo, já existente, em andamento e não de um ambiente criado.

Princípios Estratégicos

    • Mantenha sempre um trunfo contra seus inimigos e saiba quando deve ser acionado;
    • Conheça o que pensa o eleitor, antes de partir para a sua conquista;
    • A melhor forma de conquistar a mente a mente do eleitor  é ser primeiro a chegar;
    • Não basta ter o perfil desejado pela população, é preciso associar sua imagem a ele antes dos adversários;
    • Trabalhe na linha de menor resistência ao posicionamento na mente do eleitor;
    • Procure maximizar os pontos favoráveis e minimizar as falhas, se possível convertendo-se em virtudes;
    • Procure antecipar o ciclo de idéias e aspirações que predominará no momento da eleição;
    • O eleitor sempre associará o candidato a continuidade ou mudança. Compatibilize sua imagem com a tendência predominante, respeitando os limites impostos por sua personalidade;
    • Concentre seu discurso na valorização e unidade do partido;
    • Convenção é sinal de força. Se for conveniente, antecipe a convenção;
    • Concentre forças no seu principal inimigo, não desperdice munição atirando para todos os lados;
    • Procure sempre antecipar-se aos movimentos de adversários que possam ameaçar sua posição antes que seja preciso reagir;
    • Confirme os defeitos do inimigo junto ao eleitorado. Ataque nesse ponto.
    • Procure demonstrar incoerência entre o discurso do candidato e seu passado;
    • Utilize a força de liderança para eliminar as possibilidades de reação do inimigo;
    • Redirecione forças para os segmentos que apresentam maior potencial de votos;
    • Se a polarização é inevitável, procure levar seu adversário para o campo que lhe seja mais favorável;
    • O político eficiente tem na “comunicação” seu amuleto de sorte. Um problema resolvido pode pôr tido a perder. Se o político se omite, não comunica, em determinadas ocasiões, ele deixa espaço para o crescimento da oposição e, conseqüentemente, para versões distorcidas de seus opositores.
Fique atento às pesquisas de opinião

Para Maquiavel “a realidade é como é, não como gostaríamos que ela fosse”. Portanto, fica clara a importância da pesquisa na vida do candidato e mais ainda na vida do eleitor. Os fatores de maior relevância a serem apurados são: a imagem do candidato, sua trajetória política, seu carisma e empatia com o eleitor, seu programa de governo, sua principal meta de governo, a sua profissão, seu partido político, seus apoiadores e o grupo social em que está inserido ou se identifica.

Na eleição, como na guerra, grande parte das batalhas é decidida em tempos de paz. A preparação da campanha inicia-se com a avaliação do eleitorado, do potencial próprio do candidato e de seus prováveis inimigos. Devemos, então, tomar como ferramentas três tipos de pesquisas aplicáveis ao marketing político objetivando avaliar o eleitorado:

  • Pesquisas de opinião pública procuram mensurar  o conhecimento da população sobre determinados assuntos como ecologia, privatização, AIDS, economia, política, área social e etc.
  • Pesquisas de acompanhamento e desempenho administrativo levantam os principais problemas da população, avaliam o desempenho dos governantes, aferem a imagem administrativa, o grau de conhecimento dos projetos e das obras realizadas e o grau de satisfação com os serviços públicos.
  • Pesquisas eleitorais, por sua vez, procuram detectar as intenções de voto do eleitor a cada momento, aferindo o potencial de adesão ou rejeição a cada candidato.


REFERÊNCIAS: VOTO É MARKETING, O RESTO É POLÍTICA. SEQÜELA, Jacques. Edições Loyola

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Coisa de Brasileiro?

Você certamente já deve ter ouvido falar ou conhece alguém do tipo insatisfeito: aquele sujeito que reclama de tudo e é sempre do contra. Pra ele nada está bom! Se tá calor o cara quer frio. Se você traz um doce ele diz que está de dieta, mas não deixa de lado o cafezinho melado! Se a turma combina pra ir ao cinema ele diz que vai fazer uma pipoquinha e assistir um filminho em casa mesmo, embora todo dia reclame das repetições tão comuns na televisão.

O pior de tudo é que além de rabugento o sujeito é descansado. Reclama da política, mas a cada eleição repete o voto. Fala mal do pãozinho da esquina, mas tem preguiça de andar até a outra padaria onde o francês sai quentinho de hora em hora. Não gosta do emprego e da empresa em que trabalha, mas na maioria dos casos pede aposentadoria ao patrão que assinou sua carteira há mais de trinta anos. Reclama dos juros, mas não sai de casa sem o maldito cartão de crédito.

Dizem que está no DNA de quem nasce nesta terra esperar pelo outro e pôr a culpa em alguém. Pedro Paulo reclama todo santo dia da conta de luz. Diz que o governo é pilantra, corrupto e que sobretaxa a energia há pelo menos 16 anos. Mas, dias desses, tive que o esperar por cerca de trinta minutos enquanto ele relaxava debaixo de um chuveiro elétrico pra se livrar do estresse! O cara é maluco, quase um psicopata. É também descarado. Veja você que quando saiu do banho, na maior nice, depois de gastar milhões, o malandro se revoltou com  o filho só porque o garoto tinha ligado um ventiladorzinho pra se refrescar dos quase 40 graus que torrava o Rio naquela sexta-feira de verão. Aos berros, ele exigia economia! Pode?

A mulher, dondoca frustrada, já que sempre colocou o chapéu além do alcance, todo mês gasta os tubos com gasolina para ir bater-perna no Centro da cidade, embora o metrô que passa na sua porta faça a mesma viagem em menor tempo e por preço muito inferior. Ela diz que andar de coletivo é coisa de pobre e que é de classe média; pelo menos acredita! Se vivesse na Europa certamente pensaria diferente: por lá as pessoas estão mais preocupadas com a coletividade e a sustentabilidade financeira e ambiental.

No estrangeiro, comodismo e ostentação soam mal e cada uma faz a sua parte. Por aqui a tal da lei do Gerson ainda é moda. Gente que se diz bacana, séria e compromissada, e que até reclama da corrupção, não vê qualquer problema em fazer um gatinho na luz, desviar o sinal de TV a cabo, subornar alguém na fila, o guarda no trânsito ou o funcionário público pra liberação de um documento digamos rasurado! Isso é ou não é ser do contra? Ver todo isso e não falar ou fazer nada é ou não é comodismo?

Coisa de brasileiro?                          

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Vil Metal


Todo dia era assim. Antes que o sol batesse à janela, Carlos Alberto estava de pé. Às 5h30, já tinha tomado banho, escovado os dentes e afiado a língua; afinal de contas sua jornada começava cedo e cada minuto precisava ser produtivo. Como de costume, o empresário, dono de um grande jornal, acordava a casa com seus berros.

Ora queria saber onde estava a roupa do dia, embora estivesse sempre ali: passada e pronta para o uso na porta do meio de seu guarda-roupas: um móvel rústico talhado em madeira de lei. Noutro momento cobrava da mulher as chaves do carro que, como de costume, a cada dia amanheciam em lugar diferente por causa da sua desorganização.

Ninguém entendia o porquê de tanto estresse. Nem havia completado cinquenta anos e já vivia uma realidade bem diferente da maioria dos colegas de infância. Nascido em uma comunidade pobre da baixada fluminense, no Rio de Janeiro, o empresário de alta estatura, cabelos grisalhos e porte atlético, circulava pela cidade num carrão de luxo importado. Usava roupas de grife e mantinha na gaveta perfumes caros; daqueles que só homens de negócio costumam usar.

Sua cobertura, um duplex de frente pro mar da zona oeste, chamava a atenção de quem passeava pela orla; nem de longe lembrava a casinha sem reboco onde ele e o irmão Antônio cresceram.
A Gazeta Fluminense, que comandava com pulso forte, estava entre as mais bem-sucedidas empresas de comunicação do Estado e vivia dias bem diferentes daqueles quando Carlos Alberto, ainda recém-formado no ensino médio foi transformado em executivo de vendas do jornal.

A infância

Carlos Alberto Dantas nasceu no dia 21 de junho de 1970, em Nova Iguaçu, no Rio, duas horas depois do Brasil vencer a Itália por 4 x 1 e conquistar sua terceira copa do Mundo, no México.  Mesmo dia em que os pais completavam três anos de casados. Seu nome foi uma homenagem ao eterno capitão Carlos Alberto Torres.

Filho de Francisco Dantas, um lavrador criado no cabo da enxada no sertão de Pernambuco, e de Joana, diarista, o menino sempre soube que só com trabalho um homem pode ganhar a vida. O pai acordava cedo todos os dias. Às quatro da manhã, estava de pé preparando o cafezinho que vendia no trem a caminho do trabalho. Era jardineiro na casa dos Lacerda desde 1960, quando chegou no Rio de Janeiro fugindo da seca do nordeste. Nem nos dias de folga o homem descansava: quando não estava na capina podia ser visto lavando carros ou vendendo picolés pela rua. Uma rotina quebrada no dia treze de maio de 1983.

Carlos e o pai estavam em casa quando o telefone tocou. Era Juvenal Lacerda, o patrão, que sem meias palavras foi logo informando da morte de Antônio.

- Francisco, aqui é o Juvenal.
- Boa tarde doutor. Olha, eu num fui trabalhar porque...

           O Caxias que pela primeira vez havia faltado o trabalho foi logo interrompido:

- Escuta, homem, sobre isso a gente fala depois. O negócio é o seguinte: Toninho morreu.
- O quê?, perguntou Francisco sem acreditar.
- Ele estava limpando o jardim e meteu a enxada no fio do refletor. Ai já viu, né? Tomou um choque de 220 volts e não resistiu.

Antes que o patrão terminasse a conversa, seu Francisco sentiu uma pontada no peito e caiu. Desesperado, o filho de apenas treze anos de idade só conseguia gritar: acorda papai, acorda! Foram os dez minutos mais longos de sua vida. O menino chorava, pedia socorro, mas ninguém ouvia. Dona Joana que voltava de mais uma faxina escutou os gritos ainda do portão. Assustada, entrou correndo e encontrou o filho em estado de choque. Voltou pra rua, pediu ajuda, mas era tarde demais: o marido estava morto. Num instante de lucidez decidiu ligar para o patrão dele e pedir socorro. Foi exatamente quando Juvenal chegou. Como tinha achado estranho o silêncio do empregado ao telefone decidiu vir e contar do ocorrido pessoalmente. Chegando foi surpreendido pelo destino: agora, além de informar o desencarne de Antônio precisava consolar a mãe e o caçula pelas duas perdas.

Na manhã seguinte, pai e filho foram enterrados.

O baque foi tão forte que mudou pra sempre a vida da família. Carlos Alberto que sempre foi um doce com a mãe se fechou. Passava a maior parte do dia na escola e em casa ficava trancando no quarto: não queria ver ninguém. Foram dias de silêncio até que conheceu Maria, a primeira namorada. Uma morena bonita, de cabelos longos e negros, que chamavam a atenção. Tinha 15 anos, morava no mesmo bairro e frequentava a mesma escola. Três anos de namoro até que decidiram deixar a casa dos pais, sem se pedir permissão, e fugiram pra viver juntos.

Conquistando a vida

O jovem que nunca tinha pegado no batente agora precisava arrumar trabalho. Com o diploma de técnico em administração chancelado pela Escola Municipal Monteiro Lobato, uma das mais respeitadas da baixada, foi até a Gazeta Fluminense falar com o velho Juvenal, ex-patrão do pai. Ele era o dono do jornal fundado na década de trinta e que já tivera em seus quadros jornalistas ilustres como Machado de Assis e Rui Barbosa.

O momento não era bom. A empresa estava atolada em dívidas, tinha reduzido em 50% o número de trabalhadores e remanejado os últimos dez funcionários para manter o jornal circulando. Mesmo assim, surgiu uma proposta desafiadora: ao invés de salário mensal o jovem trabalharia como executivo de vendas ganhando 20% sobre a venda dos jornais e nada além. O ano era 1998 e o diário mais tradicional de Nova Iguaçu precisava de um novo gás.

Naquela época, conseguir anunciantes era como encontrar uma agulha no palheiro. A internet ganhava força, atraia cada vez mais leitores e tirava dos impressos a verba publicitária. Jornais como o JB, um dos primeiros e mais respeitados, já migravam para versão on-line. Mas a Gazeta teimava em resistir.

Sem pestanejar o garoto aceitou a proposta. Tinha aprendido com o pai que só com trabalho se vence e que um homem não pode ter medo dos desafios que vida lhe impõe. Impôs apenas uma condição: a estratégia de vendas seria de sua total responsabilidade e ele não aceitaria interferências da chefia. Negócio fechado!

No dia seguinte, às sete da manhã, o novo executivo estava na Gazeta. Procurou o patrão e apresentou suas armas; estava disposto a adaptar promoções do comércio local pra vender propagandas. Faria assim: os antigos anunciantes que quisessem manter suas propagandas ganhariam de brinde um segundo anúncio, do mesmo tamanho do contratado, em outra página do jornal. Chamou a promoção de Dobradinha, do tipo pague um e leve dois.  Ora, se anúncio tem o objetivo atrair o maior número de consumidores, com mais exibições maiores as chances de convencê-los!

Para atrair novos clientes a estratégia seria diferente: consultoria especializada. Pra reduzir os custos do anunciante a própria equipe da Gazeta elaboraria sua propaganda e o ajudaria a escolher a melhor página para veiculação de acordo com o público alvo, evitando pra eles gastos com uma agência especializada. Além disso, o cliente ganharia uma publicação grátis a cada duas negociadas. Se contratasse quatro dias de publicação, por exemplo, teria sua mídia veiculada de segunda a sábado, seis vezes. Caso quisesse anunciar também no domingo ganharia desconto de 5% no preço total nos contratos de no mínimo três meses.

Mas pra tudo funcionar direitinho, a empresa precisava garantir que o jornal chegasse sem atraso às mãos do leitor, afinal de contas o impresso circulava nos 13 municípios da baixada fluminense, uma área enorme pra ser coberta. Pra evitar problemas, o novo executivo que tinha passado a noite estudando tudo sobre distribuição de jornais já tinha um plano.

Nos bairros com maior número de assinantes a entrega passaria a ser feita até às seis da manhã garantindo que o leitor recebesse o jornal antes de sair de casa e começasse o dia bem informado. Nas demais áreas, incluindo as regiões de comércio, os exemplares estariam nas bancas até às 7h. Assim, a caminho do trabalho qualquer pessoa poderia comprar a Gazeta Fluminense e ficar por dentro das novidades do dia.

A empresa faria um acordo com os donos das bancas para que seus exemplares fossem estrategicamente pendurados na parte externa das bancas deixando suas principais manchetes às vistas do público: capa boa atrai curiosos que compram o jornal. De ouvidos sempre atentos, o novo estrategista tinha escutado esta frase no dia anterior quando passava pela redação durante uma reunião de pauta. E cá pra nós, visibilidade, neste ramo, é alma do negócio!

Quando acabaram as explicações, o velho Juvenal se deu conta de que tinha acertado em cheio na contratação. O rapaz tinha jeito pra coisa; parecia até ter nascido em uma família de comerciantes e não de um jardineiro com uma doméstica. Seus filhos que estudaram nas melhores escolas e cresceram dentro da empresa nunca apresentaram uma estratégia pra garantir vivo o negócio que iriam herdar.

A grande virada

Foram dois anos de muito trabalho, mas no final tudo deu certo. As vendas triplicaram e a Gazeta Fluminense voltou a ser o maior jornal da baixada fluminense. Com a conta bancária em alta, no dia 7 de setembro de 2000, Carlos Alberto Dantas deu o grito de independência: chamou o patrão e o convenceu a pendurar as chuteiras aos 85 anos de idade. Por cerca de R$ 300 mil lhe comprou o diário e se tornou o mais novo magnata da comunicação.

Com o nome consolidado e de olho no mercado virtual a Gazeta ganhou sua versão on-line. Um site moderno, de visual arrojado, com notícias dinâmicas, correspondentes no exterior, fotografias em alta definição, blogs dos principais colunistas do Estado e uma WebTV. O sistema de buscas permitia acesso a todos os jornais desde a primeira edição impressa. Em pouco tempo, o GF.com passou a ser o portal de notícias mais visitado do Rio e, de quebra, o de melhor resultado financeiro. De pobre menino da Baixada, o agora Dr. Carlos Alberto era o mais respeitado empresário das comunicações no Rio de Janeiro.

Vida nova, hábitos novos e a arrogância peculiar àqueles que tudo têm às mãos. Com dinheiro no bolso vieram os bens materiais e a mudança de personalidade. O jovem que adorava os amigos, tinha ideais trabalhistas e queria um mundo mais justo e igualitário, agora só pensava no lucro. Entrava e saia da empresa sem dar bom dia: relacionamento amigável só com funcionários do alto escalão e grandes clientes.

Em casa, a rotina também mudou. O bate-papo com a mulher, o filminho em família, as brincadeiras com os filhos não aconteciam mais: o poderoso chefão não tinha tempo pra conversas fiadas. Toda vez que Junior pedia ao pai pra jogar com ele uma partida de vídeo game, por exemplo, a desculpa era sempre o cansaço. Afinal de contas, no dia seguinte o homem de negócios tinha que multiplicar a fortuna pra garantir o conforto de todos! Levantar cedo, acordar as crianças e tomar café com eles, quando tinha tempo, eram os carinhos que lhe bastavam. A paixão pela esposa havia se resumido a um beijo de despedida quando ela insistia.

O casamento se arrastou assim por cerca de cinco anos até que depois mais um round de xingamentos e agressões físicas, Maria decidiu ir embora. Juntou algumas roupas, documentos, pegou os filhos e saiu sem dizer uma só palavra. Carlos que estava na sala, agarrado à garrafa do seu escocês preferido, não viu a família sair. Bêbedo, ali mesmo dormiu.

No dia seguinte, quando mais uma vez queria saber onde estava sua camisa de linho branco, percebeu que algo estava diferente. Seus gritos não tinham resposta. Procurou por toda a casa e não encontrou a mulher. Foi ao quarto das crianças e os filhos não estavam lá. Ligou pro celular, mas a esposa não atendeu. Meia hora depois, vestiu as roupas que encontrou, passou seu melhor perfume, entrou no carro e foi trabalhar.

Os dias seguiram e a bela mansão da Avenida Lúcio Costa, construída para dar conforto à família, receber amigos e ostentar o sucesso do Dr. Carlos Alberto perdeu seu brilho. Apenas os empregados, que chegavam cedo e saiam antes do patrão voltar, frequentavam a casa.

No natal de 2015 uma ligação telefônica quebrou o silêncio: era um vizinho dos tempos em que Carlos ainda morava com mãe que ele não a via desde que deixou sua casa pra morar com a namorada. Sem meias palavras o homem foi logo falando que dona Joana havia morrido. Não deu detalhes, disse apenas que foi de infarto e que o corpo seria enterrado por volta das três da tarde no mesmo cemitério onde aos treze anos de idade ele tinha sepultado o pai e o irmão mais velho. A ligação caiu e o silêncio tomou conta da casa.

Quando deu por si, Carlos estava atônito, revirando caixas, gavetas, pastas de documentos tentando encontrar uma foto da mãe... Aos prantos gritava pela mulher que não estava ali: Maria, cadê as fotos de mamãe? Cadê as fotos Maria?.... Maria... Mariahhhhhhh.

De repente, encontrou uma fotografia do aniversário de dez anos do filho Junior, completados pouco antes da separação. O menino sorrindo em nada lembrava a criança triste pra quem o pai não tinha tempo. Cenas das brigas sem motivo, dos gritos, empurrões... da falta de paciência lhe tumultuavam a cabeça. Carlos estava sem chão, sentindo-se fraco, frágil, infeliz!


Tomou consciência de que não tinha mais ninguém. Estava sozinho, havia trocado os carinhos dos filhos, os afagos de Maria, o bate-papo em família pela ilusão de poder que o dinheiro traz. Foi preciso morrer a mãe pro filho acordar pra vida!

quinta-feira, 7 de maio de 2015

À deriva

Goytacaz de olho a Taça Corcovado

Paint Horse domina os haras cariocas

Animais causam acidentes nas rodovias do Rio

Marina Elali em Campos

HGG na mira do Ministério Público Federal

Seca atinge São Francisco de Itabapoana

Mega Sena sai para Cambuci, RJ