quarta-feira, 27 de julho de 2016

A farsa

“Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente. Mentem de corpo e alma, completamente. E mentem de maneira tão pungente que acho que mentem sinceramente. Mentem, sobretudo, impune/mente.” Quando ouvi Affonso Romano de Sant'Anna dizer isto logo me dei conta da política do meu país. Aqui, infelizmente “mentem tão nacional/mente que acham que mentindo história afora vão enganar a morte  eterna/mente.”

Mentiram quando disseram, em 1988, que o país era democrático e que o voto a partir de então seria livre. Mentira: ainda hoje os coronéis obrigam o povo ao cabresto quando chega a hora da urna.

Mentiram quando disseram que a partir da Constituição os direitos seriam iguais. Mentira: ainda hoje vemos crianças fora da escola; homens e mulheres passando fome; famílias inteiras sem ter onde morar; mendicância nas filas do atendimento público de saúde; 15 milhões de brasileiros desempregados e outros tantos no subemprego.

Mentiram quando falaram da liberdade de expressão. Mentira: ainda hoje jornalistas são perseguidos. Gays, lésbicas e simpatizantes hostilizados nas ruas por que amam diferente daqueles que acham normal apenas uma forma de amor.

Mentiram quando disseram que educação era obrigação do Estado e direito de todo cidadão. Mentira: ainda hoje adultos morrem analfabetos sem sequer poderem assinar seus nomes. Crianças chegam ao ensino médio sem conhecer direito as básicas operações matemáticas. Professores nos rincões de pobreza do país são analfabetos funcionais.

Mentiram quando disseram que o Brasil é a pátria de todos. Mentira: ainda hoje Amarildos, Silvas e Marias vivem num país desigual onde a pobreza é vista por PMs despreparados como sinônimo de bandidagem. E por isso, estes desfavorecidos das favelas cariocas são presos, apanham e choram tentando provar inocência sob a acusação de tráfico.

Mentiram quando inventaram que brasileiro gosta de pão e circo. Mentira: não gostamos, aceitamos pra não morrer de tanto chorar vivendo num país tão desigual.

“Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura. Mas não se chega à verdade pela mentira, nem à democracia pela ditadura”, já dizia o poeta Affonso Romano de Sant'Anna.

E a tal da inspiração, de onde vem?

Era terça-feira, mas não uma terça qualquer. Aquela era especial. Afinal de contas, era dia de contar estórias. Naquela sala coral estavam reunidos os melhores aprendizes das letras. Tinha gente de Campos, de Nova Iguaçu e até da Bahia. Atentos, os novos escritores tentavam entender nas entrelinhas de Armando Nogueira como fazer de um texto uma crônica esportiva.

Nas prosas do craque tudo chamava a atenção: a bola, o gramado, os uniformes e a conversa alta dos meninos em um campinho da Baixada Fluminense. Cada palavra, atitude ou gesto usados por Armando precisavam ser atentamente observados pelos alunos da professora Edda, já que os elementos eram tijolinhos daquela construção literária. Estava tudo perfeito. Sentia-me como se ainda estivesse na sala da tia Marilda que durante o primário me convidava a navegar no mar da literatura brasileira. De repente, um barulho:

- Que que é pra fazer, Joana? Perguntava um certo funcionário da instituição que nos presentava com aquela oficina de prosa.

Teve gente que não se abalou e continuou vidrado nas crônicas do Armando. Mas eu, jornalista, sempre prezei pelo silêncio na hora de escrever e fiquei irritado. Como podia alguém interromper uma aula de forma truculenta e descabida? Ora bolas, um desrespeito sem tamanho! Aquele sujeito tinha atrapalhado nossa terça-feira especial simplesmente para retirar da sala uma lousa que seria usada num outro dia, por uma outra turma qualquer; não pela nosso seleto grupo de aprendizes!

De repente me veio à cabeça as aulas no Colégio Leopoldo. Lembro-me como se fosse hoje: ai de quem interrompesse a professora Marilda por um motivo tão banal. Seria logo taxado de mal-educado e convidado a se retirar. Ainda mais se o tema fosse crônicas esportivas de Fernando Calazans, Armando Nogueira ou Nelson Rodrigues. Todos craques da literatura contemporânea.

Passado o susto, voltei aos estudos e reli: a crônica é um texto em primeira ou terceira pessoa, escrito em prosa. Narrativo e descritivo, às vezes cronológico e quase sempre de teor contemporâneo. Muitas vezes usa da metalinguagem e sempre que possível abusa de outras figuras de linguagem. No bojo, são textos atuais.

Dei-me conta que a entrada triunfal daquele servidor do SESC não havia sido de todo ruim; na verdade não fora. Ao contrário, foi um grande presente do acaso. Relatar toda aquela situação era a inspiração que me faltava para escrever esta minha primeira crônica.

terça-feira, 26 de julho de 2016

SUS bate à porta da UTI

Que a saúde pública anda mal das pernas e precisando de atendimento em UTI todo mundo já sabe, menos o secretário de governo de Campos dos Goytacazes. Enquanto passa o tempo em articulações politico-eleitorais, o coitadinho não tem tempo para averiguar, de verdade, como andam as unidades municipais de saúde.

Em um jornal, supostamente de sua propriedade, disse ele ter recebido denúncias de moradores do bairro Jardim Carioca, em Guarus, de que no Posto de Urgência (PU) faltavam médicos: péssima notícia pra quem nunca sabe o que fazer a cada taquicardia ou palidez. O bonitinho das ocasiões especiais tomou tento, foi lá e viu com os próprios olhos que dos oito profissionais do plantão apenas dois estavam em serviço. Teve tempo ainda de verificar problemas no aparelho de raio-x, no sistema de ar-condicionado e percebeu que faltavam alguns medicamentos na farmácia pública. O problema é que estas dificuldades que só agora viu já estão pra se aposentar.

No PU tudo parece precário. O local em nada lembra um Posto de Urgências médicas. As paredes estão sem reboco em vários pontos e em outros há mofo: onde ainda há tinta ela está escondida pela sujeira. Os banheiros mais parecem fossas destampadas de tanto que fedem. Nos corredores 'cinzas' pacientes com diferentes diagnósticos ficam amontoados. O mais grave: crianças que aguardam atendimento pediátrico dividem o mesmo corredor.

Dia desses, uma senhora de 37 anos, moradora do Centro, com tonturas, náuseas, diarreia e muita dor no corpo chegou à unidade. Foi atendida por um médico que apenas a mandou tomar soro de reposição sódica nas veias. Quando chegou à sala de repouso feminino verificou que as macas/camas não tinham lençóis limpos, aliás apenas duas mantinham seus colchões rasgados cobertos por pedaços de pano usados por outros pacientes antes dela chegar.

Logo que foi medicada, a tal senhora teve uma crise e correu pro sanitário, mas pra sua surpresa não havia papel higiênico. O banheiro estava sujo e não havia nem sabão para os pacientes lavarem as mãos após suas necessidades. O marido correu à enfermaria para reclamar e se revoltou com a notícia de que banheiro sujo por ali é coisa comum. A falta de material pra higiene dos pacientes também. 
Semanas antes ele mesmo havia estado na unidade com uma infecção de pele e teve que recorrer à farmácia comercial que fica em frente ao PU para comprar a Benzetacil que iria tomar.

Já pensou se o paciente fosse o tal secretário de governo que vive às voltas com suas crises nervosas e ataques súbitos de histeria quando é contrariado por alguém?

Parece brincadeira de menino levado que fica por ai contando mentiras só pra sacanear os inimigos, mas não é. A saúde pública vive seus piores dias e só não vê quem não quer. Sabe por quê? Vou te contar: acompanhar o dia-a-dia  e corrigir problemas administrativos só dá Ibope em época de campanha eleitoral. Além disso, quem cuida do SUS não utiliza seus serviços quando a doença aparece. copel teste

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A vida como ela ainda é...

Todo dia era a mesma coisa. Quando João se preparava pra sair a mulher saia com aquela:

- Não vai não, fica comigo!
- Por que?
- Não quero ficar sozinha.

Parecia namoro. Tinha cara de romance de novela com muito beijo na boca. Mas que nada; nada pode ser tão perfeito assim num relacionamento a dois.

- Quer saber mesmo? Perguntava a mulher. Não tô te entendendo: toda vez que estou em casa você quer ir pra rua e quando estou na rua você quer me trancar em casa!
- Você deve ser maluca...
- Maluca é a sua mãe. Eu te conheço não é de hoje!

Discussãozinha besta mesmo, tipo das de casal moderno.

- Não sei onde quer chegar! Quando eu passava o dia inteiro com a bunda no sofá você me mandava procurar o que fazer. Agora que achei você reclama. Deve ser doida, só pode ser doida!!!

João e Maria estavam casados há vinte anos. Conheciam o outro mais que a si mesmos, mas nunca se entendiam. Um típico casamento contemporâneo onde os estranhos decidem juntar os panos e morar juntos. Convenção dos tempos modernos que nada tem a ver com casamento.

- Te conheço na palma da mão, dizia a esposa. Não sei o que tem na rua, mas só pode ser mulher...
- Você é louca. Faz um ano que estou desempregado. Não tenho um tostão... Estou cheio de dívidas... Como pode achar que tenho amante? Mulher gosta de dinheiro; de homem que paga as contas!
- Ah, meu filho, pra sacanagem sempre se dá um jeito. Homem é bicho safado, num presta! Te conheço na palma da mão. Trabalho é que não é. Faz dias que você não coloca um centavo em casa!

João era um nordestino daqueles que nunca gostou de dengo. Pra ele mulher servia pra cuidar da casa, dos filhos e pra lhe servir à noite na alcova. Um tipo machista que não aceita ajuda nem mesmo quando está na pior;  pelo menos é o que deixa parecer. Se não tinha trabalho fixo fazia bico. Se não tinha bico, ficava em casa esperando um chamado a qualquer momento. Estava sempre pronto a servir o primeiro patrão e nunca aceitou que sua mulher tralhasse fora. Era o homem da casa e sempre dava a última palavra.

- Por acaso algum dia saí com você e te deixei pagar a conta? Já mandei você trabalhar pra botar o que comer em casa?

A resposta vinha como foguete. Estava na ponta da língua.

- Deixar eu pagar as contas você nunca deixou, mas eu pago mesmo assim. Ou você acha que a energia está ligada e a água na torneira por obra do divino espírito santo? Por que será que eu passo o dia inteiro com a barriga naquele tanque, heim? Nunca achou estranho que o varal esteja sempre lotado? Desconfia sujeito!

- O quê? Você está lavando roupa pra fora e num me falou nada? Virou empregadinha sem eu saber? Tá doida? Que que vão falar de mim... Pior, o que já devem estar falando? Devo ter virado chacota e nem sei.

Por lá, a roupa suja era lavada no verbo também.

- Não sei porque tá nervosinho, quando te conheci você estava desempregado como agora, esqueceu? Meu tio tinha te colocado no olho da rua depois de descobrir que você tinha emprenhado a filha dele e num quis casar com ela. Mesmo assim eu caí na besteira de ficar contigo.
- Você é louca. Eu que larguei aquela uma porque não servia pra mim. Já tinha se deitado com todo mundo e o véio achava que a barriga dela era culpa minha. Ali não tinha nenhuma santa e você sabe disso; por isso ficou comigo!
- Isso num importa. Naquela época você não tinha dinheiro, tinha fama de mulherengo e mesmo assim eu caí na sua lábia, cachorro. Você era um duro como é agora. Dinheiro não é tudo não, meu filho.
- Mas agora é diferente. Eu sou um homem sério, trabalhador, pai de filhos, casado. Me respeita.
- E daí, deixou de ser homem? Passou a prestar?

terça-feira, 19 de julho de 2016

Sopa de letrinhas

A língua portuguesa sempre teima em nos deixar confusos com suas palavras e significados. Comigo sempre foi assim. Custei pra entender que manga servia para dar nome a uma das frutas que mais gosto, mas também pra especificar uma das partes que compunham as camisas que minha avó costurava pra oferecer na feira bem ao lado da barraca onde meu avô vendia frutas. E braço? Como uma parte do corpo também poderia “ser parte” de um sofá?

Mas, nada me deixou mais confuso do que a palavra sucesso. Tinha cerca de doze anos quando o vizinho da frente estacionou em sua porta um Escort XR3 vermelho, conversível, que de tanto brilhar me ofuscava a visão. Era o carro da moda, lançamento do ano. Meu pai olhou pra máquina, pra mim, e disse:

- Lindo, não é filho? Deve custar um bocado de dinheiro. Coisa pra gente rica, de sucesso.

Dias antes, tinha ouvido minha mãe dizer a uma amiga, na sala lá de casa, que sucesso era estar na novela das oito, como o Fagundes, de quem ela era fã. Eu nunca o tinha visto em um Escort XR3; nem mesmo nas propagandas da televisão.

Naquela época, a tal palavrinha também era usada por uma marca de cigarros pra enganar os consumidores e vender seu produto: Hollywood, o sucesso! Ora, como estas sete letrinhas juntas poderiam dar nome a uma fruta sinônimo de saúde e ao mesmo tempo qualificar um troço à base de nicotina que, como se sabe, faz tão mal ao pulmão?

Os anos se passaram, a palavra foi ganhando cada vez mais significados e eu ficando cada vez mais encafifado. Na minha rua morava um certo doutor Antônio Reis. Por lá todos diziam que era fruto de uma família pobre, mas que com muito esforço tinha chegado à universidade se tornando bacharel em Direito. Magistrado aos 45 anos era considerado pela comunidade um homem de sucesso. Mais um significado!

Só fui entender mesmo o que aquelas letrinhas queriam dizer quando conheci o professor Ademir. Sumidade na língua portuguesa, ele me explicou que significado é o sentido da palavra; o valor que damos a ela. Portanto, pra saber o que significa sucesso e outras palavrinhas como manga, braço, perna, cabeça, dente, etc., é preciso sempre analisar o contexto onde cada uma está inserida. Enquanto para uns sucesso significa ter dinheiro, poder, posses... para outros é fumar o cigarro da moda ou simplesmente vestir uma roupa de marca. Ao mesmo tempo, para os menos preocupados com o vil metal e mais atentos às atitudes, sucesso pode significar apenas trabalhar no que gosta e ser feliz.

Agora sei que sucesso só significa sucesso quando a palavra tem sentido pra alguém.

Rio Maravilha

Naquele domingo tudo parecia perfeito. No Rio, os termômetros marcavam 35 graus. O céu estava azul e uma leve brisa soprava nos rostos cariocas mais dispostos. Era certo, daria praia. Como de costume corri ao supermercado, comprei uns biscoitos, água de coco - que no playground carioca anda pela hora da morte, e, é claro, algumas cervejinhas. Afinal de contas, Ipanema sem a loira gelada é como namoro sem beijo na boca.

Tudo parecia perfeito não fosse aquele brutamontes com seu PitBull se achando o dono do pedaço. Mal coloquei os pés a areia e a primeira surpresa: uma bomba deixada pelo monstro de quatro patas. Não sabia quem era mais desatento: o quadrúpede ou o animal que o cria.

O Arpoador de areias claras e ondas maliciosas já não era mais o mesmo; nem de longe lembrava o paraíso da minha infância! Naquela época, sempre que chegava à orla era recebido com a música do vendedor de Mate "olha o mate, Mate Leão", os gritos do homem do picolé "olha ae o picolé... ô gelado!" e pelos insistentes chamados do Carlinhos do Queijo Coalho tentando convencer meu pai a matar a fome e os desejos da garotada "ô seu Cezar, os menino tá com água na boca!". A criançada se divertia jogando bola e construindo seus castelinhos de areia. Já os marmanjos... Esses passavam o tempo praticando uma especialidade carioca: analisar a mulherada!

Hoje está tudo diferente. O cheiro do camarão na brasa deu lugar ao da urina dos bêbados apressados e dos cães desavisados que usam a praia como sanitário. A criançada não arreda os pés de perto dos pais isoladas em seus mundinhos virtuais. A conversa tranquila deu lugar à preocupação com os arrastões agora tão comuns. Nem parece que estamos naquela cidade que um dia pôde se orgulhar de ser chamada de maravilhosa!

Se meu pai estivesse vivo certamente iria reclamar. Ele que sempre gostou de correr com os pés molhados hoje teria de tomar cuidado pra não cortá-los nas garrafas esquecidas na areia. Ambientalista engajado certamente denunciaria a prefeitura por tamanho descaso: ora, onde já se viu manchar um cartão postal com restos de comida, lixo e falta de vontade política? Ainda bem que o velho Cezar descansou: ele não aguentaria ver seu Rio assim.

Nos dias de hoje vale mais à pena ficar em casa. Rio Maravilha só nas canções do Jobim ou nas telas da TV.

sábado, 16 de julho de 2016

Os jovens e a tal 'ostentação'

- O comédia tá doido pra perder o celular.
- Quer aparecer!
- Já já vem um doído e acaba com a onda dele.

Ouvi essa conversa quando chegava à escola pra buscar meu filho. Partia de dois meninos criticando a atitude de um colega que simplesmente falava ao celular na calçada à vista de qualquer um. Ele usava um desses aparelhos modernos que parecem pé de fruta e já vem com uma maçã! Não parecia ter qualquer pretensão de usurpar olhares, mas já havia virado motivo de chacota. Talvez porque o sonho de consumo de seus críticos seja possuir um brinquedinho igual, que além facilitar a comunicação funciona praticamente como minicomputador.

A situação anda tão feia no Rio de Janeiro que ninguém mais pode usar seus objetos sem medo, pensei; achando que era essa também a preocupação dos meninos. Mas, logo percebi que estava errado quando cheguei mais perto e pude ouvir o fundo musical de toda aquela crítica. Em seus aparelhos menos vistosos, mas também potentes, os manos se deliciavam ao som dos “novos pensadores brasileiros.”

Olhei pro espelho e preparei um plano
Cordão de ouro pesado
Rolex tenho sobrando
No meu guarda-roupa uma coleção de kit's
Só estampa de marca parece uma loja de griff
Entrei na minha garagem puro conforto das naves
Bmw-X6 e uma linda maserati
Mais que bela visãodo Ap do Guarujá
A vida agora é Vip com a lancha de 3 andar

Meu Deus, que porcaria, sussurrei tentando entender o que se passa na cabeça dos jovens de hoje. E enquanto esperava meu filho dar as caras consegui prestar atenção ao refrão de outra maravilha que, ainda por cima, tinha a pretensão de soar como poesia:

Sonhar, nunca desistir
Ter fé, pois fácil não é, nem vai ser
Tentar até se esgotar suas forças
Se hoje eu tenho eu quero dividir
Ostentar pra esperança levar e o mundo sorrir

Caramba, devo estar velho. Na minha época “levar esperança” não tinha nada a ver com ostentação. Acompanhar a trajetória de um menino pobre que consegue superar as adversidades e se formar na universidade, muitas vezes como o primeiro graduado de sua família, isso sim nos fazia acreditar em dias melhores.

O fato é que as coisas mudaram. Os jovens mudaram. As famílias mudaram e os valores foram deixados de lado. Minha avó, professora por mais de trinta anos, costumava dizer que a tarefa da escola é alfabetizar a criança e estimular o jovem através de atividades pedagógicas e do raciocínio lógico a adquirir conhecimento pra que quando adulto esteja preparado pra decidir o que fazer da vida. Mas, mais importante que isso, cabe à família educar seus filhos através de exemplos e da vigilância.

Uma criança criada numa casa onde há diálogo e estímulo à leitura... onde se ouve boa música, se vê bons filmes e programas de qualidade... onde se discute política, comportamento e relacionamento social... onde se fala de tudo, absolutamente tudo, e se põe regras e limites terá maiores chances de se tornar um jovem crítico e de bom convício social. Certamente este indivíduo não fará da ostentação uma filosofia como querem os MCs por eles idolatrados hoje.

É preciso trazer discussões como sexo, drogas, dinheiro, desemprego, violência, educação, respeito ao próximo, amor próprio, religião, importância dos estudos e do trabalho pra roda de conversa com os filhos. Conceitos de segurança púbica e responsabilidade social. Estamos forjando cidadãos e não esculpindo estátuas.

Lares desajustados onde não há qualquer tipo regra e o crescimento das crianças corre a gosto do freguês inibem o senso crítico e permitem amizades perigosas e escolhas equivocadas. Infelizmente, muitas famílias estão deixando pras escolas e pro mundo à educação de seus filhos. E nesta inversão de papéis produzindo meninos e meninas mais atentos à ostentação que preocupados com a sociedade em que vivem.

Em outros tempos, penso que ao invés de criticarem o colega que ostentava um celular caro no meio da rua aqueles meninos, da escola do meu filho, teriam aconselhado o rapaz a usar seu telefone apenas em ambientes seguros, como o pátio do colégio para autoproteção. Mas, como estou ficando velho, talvez esteja enganado. Será?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Namoro

A aula se encaminhava pro final quando, sorrateiramente, pintou um desafio: escrever um texto a quatro mãos. Ora, a duas já não era tarefa fácil imagine agora tendo que pensar junto com outro, dividir sentimentos, ideias, respirar e sentir pra acertar as linhas. Trabalho pra ninguém botar defeito!

Parecia início de namoro. Sabe quando você sabe que precisa sair da inércia e dar o primeiro passo mas fica esperando pelo outro? Era mais ou menos assim. Os olhares se encontravam na dúvida, os lábios se espremiam no medo de dar um palpite errado e as mãos, ah as mãos, queriam avançar, mas estavam presas na incerteza.

De repente as cadeiras se aproximaram, os olhares expulsaram o medo e as bocas se abriram pra primeira ideia.

- Já que está difícil começar o texto, vamos falar desta dificuldade.
- Ah, não, isso seria óbvio demais!
- Mas como assim, nem me conhece e já está dizendo que sou previsível?

Mulheres, ah, mulheres, complicadas, mas perfeitinhas. Sem perceber ela acabara de ditar o tema da crônica: relacionamento. Nada melhor pra expressar ‘dificuldades’ que os relacionamentos humanos. São como estórias perfeitas: têm início, meio e fim; e assim são os textos. Como no namoro, primeiro a gente decide sobre o que falar. Depois se põe à disposição, dá um chute na timidez e cospe de uma ou outra forma o que está preso no peito.

Estava posto então o primeiro ensinamento da oficina e certamente o objetivo daquela proposta indecente de texto a quatro mãos: escrever é transpirar, organizar as ideias... se debruçar sobre o novo pra dominar o desconhecido. Nada diferente do primeiro dia de namoro.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

É só Poesia

Que da dor sai a poesia
Muita gente acredita
Mas que rancor,
Gente sofrida.
A poesia apenas imita a vida.

O poeta se debruça sobre o mundo,
Sobre o tempo,
Sobre a alma.
Tentar mensurar sua fonte
É egoísmo inútil.


Dar a volta por cima e achar a palavra
É ofício pra quem desfruta do verso.
O artífice das letras constrói monumentos
E no lúdico cria seus próprios tijolos.



O mundo é tão vasto e tão mundo
Que neste universo que chamas poesia
Sempre há espaço pro novo,
Ainda que nascido da agonia.

Quem sabe faz a hora

- Ah, eu até queria a vaga, mas moro longe.
- Onde?
- A uns cinco quilômetros daí. Mas não tem ônibus direto, então...
- Só isso? Rapaz dá pra vir a pé!
- É... Mas eu teria que sair de casa bem mais cedo.

Assim terminavam as explicações daquele que durante uma semana tinha tomado o tempo de um contratante em busca de vaga. O candidato tinha feito de tudo pra conseguir uma entrevista, mas na hora H... Numa das conversas, chegou a pedir “por favor”, sob a alegação de que era arrimo de família.

-Seu Victor, me deixe fazer o teste preciso trabalhar. Sou eu quem sustento minha mãe e ajudo a criar dois irmãos. Estou desempregado há quase um ano, vivendo de bicos. Deixa eu tentar, por favor?

Não dá mesmo pra entender. Em 2013, todos os dias os noticiários contavam da crise econômica e dos milhões de brasileiros desempregados. Gente diplomada tentando vagas em outras áreas abaixo de suas qualificações e aquele cidadão se dando ao desfrute.

O setor das comunicações enfrentava uma crise daquelas e ainda assim uma emissora paulistana tentava a todo custo contratar jornalistas. Tinha colocado anúncios em jornais, carros de som e nas redes sociais. Um deles dizia: “Vaga para jornalista, mesmo sem experiência. Salário de R$ 1.800: 20% acima do piso regional + benefícios. Jornada de 30h semanais”. Mesmo assim, não aparecia ninguém.

Olha que não se tratava de uma emissora minúscula, mas da maior do interior paulista com transmissão para cerca de trinta municípios da região de Ribeirão Preto, a Califórnia brasileira como costumam dizer empresários e moradores locais. Uma empresa com total infraestrutura, equipamentos de ponta, benefícios compatíveis com os repassados aos colaboradores pelas grandes rádios da capital.

Intrigado, o diretor de jornalismo se perguntava o que estava faltando. Não entendia o porquê de tanta recusa, naquela ocasião o emprego oferecido era uma bocada! Várias vezes ele se pegou pensando nas dificuldades que havia enfrentado para se formar no curso de jornalismo e por mais que tentasse entender toda aquela situação não tinha jeito.

Aos dezoito anos, Victor saía de casa às 4h30 da matina e só retornava por volta da meia-noite. Servia à Marinha do Brasil e cursava jornalismo numa universidade distante do local de trabalho e de sua residência. Passava mais tempo no trânsito e nos seus afazeres que com a família; não tinha tempo nem pra namorar. Em tom de desabafo, sem saber explicar ao patrão o porquê da vaga não ter sido preenchida depois de trinta dias de aberta resolveu contar sua história ao patrão.

- Sabe doutor, quando era jovem, acordava muito cedo. Engolia o café da manhã e corria pro ponto de ônibus pra não perder a condução e correr o risco de ficar preso no quartel por causa do atraso: o horário era rígido! Morava em Nova Iguaçu, servia na Ilha do Governador e estudava em São Gonçalo.

Atento, Rosevaldo Chagas ouvia aquele testemunho.

- De casa ao quartel eram 35 quilômetros. De lá pra faculdade outros 38 e da faculdade pra casa 57,6 contatos! Percorria todos os dias 261 quilômetros entre idas e vidas, trocando de coletivos, pra tentar ganhar a vida.
-Nossa!
- Pois é, não foi fácil chegar até aqui. Ai me vem um cidadão suplicando emprego com toda aquela conversa triste e no dia da entrevista liga dizendo que não tem mais interesse na vaga porque a empresa é longe demais? Ora bolas, de bicicleta o infeliz levaria cerca de dez minutos de casa até aqui. A pé no máximo 30, andando a passos de tartaruga!

No fim da conversa, Chagas não sabia o que dizer, mas começou a olhar diferente aquele funcionário. Ora bolas, pra estudar o cara passava cerca de seis horas por dia dentro de ônibus e agora estava a mais de 700 quilômetro de sua família pra fazer valer seu diploma e na conta ajudar a levantar o jornalismo da empresa.

Quando voltou pra casa naquela noite não perdeu tempo. Antes que o filho abrisse a boca pra reclamar mais uma vez de ter que acordar cedo pra estudar foi enfático.

- Júnior, meu filho, agora que já jantou vá escovar os dentes e cama.
- Mas, pai, não quero ir pra escola amanhã, tô cansado!
- Se você quiser ser alguém na vida, meu filho, vai ter que aprender a se esforçar. A vida é feita de dificuldades, meu caro, e pra tudo tem um preço. Trata de ir pra cama e agradecer por ter uma família que te dá casa, comida, educação e escola sem que você precise mover uma palha pra tudo isso. Eu não estarei aqui pra sempre, Junior.
- Mas pai...
- Vai pra cama, meu filho. Estude e aproveite as oportunidades da vida. Amanhã, quando estiver adulto, tiver sua família, filhos, amigos... vai poder servir de exemplo.



sábado, 9 de julho de 2016

Construíndo Campanhas

A proposta oficial do marketing designa a esta poderosa ferramenta administrativa a obrigatoriedade da criação de necessidades dentro de um determinado mercado. Cabe então, a descoberta dos valores, produtos ou serviços que as pessoas desejam ou vão passar a desejar a partir da influência oportunizada pela mensagem publicitária.

Costumo dizer que se observada de forma pragmática a palavra Marketing assume sua tradução literal: mercado. Pode-se, então, afirmar que Marketing é o estudo do mercado. É uma ferramenta administrativa que possibilita a observação de tendências e a criação de novas oportunidades de consumo visando à satisfação do cliente e respondendo aos objetivos financeiros e mercadológicos das empresas de produção ou prestação de serviços.

Para Philip Kotler, marketing é “a atividade humana dirigida à satisfação das necessidades e desejos através de um processo de troca”.  Por tanto, aplicar esta teoria em campanhas políticas pode tornar o jogo mais interessante, apimentado e sagaz. Fazer o eleitor perceber que numa proposta partidária mais vale as novas idéias que às críticas ao trabalho antecessor pode ser uma agradável tarefa para marqueteiros que vislumbram um lugar ao sol nas próximas eleições.

Toda campanha política necessita de uma gama de criadores atentos a cada passo, palavra, gesto, ação! É preciso estar alerta: quase sempre em época eleitoral o político é muito cortejado e isso pode ser o primeiro passo pra derrocada. Paparicos demasiados vindos de assessores e pares partidários massageiam o ego e cegam o competidor. Opor-se ao cliente é uma necessidade profissional porque o objetivo é a vitória nas urnas e não o título de “belo”. Porém, grande parte dos candidatos não consegue abrir os olhos. Tampouco conhece, de fato, o produto que estão oferecendo, a ideia transmitida em seus discursos ou a resposta dos eleitores às suas propostas.

Em marketing político, a comunicação é como uma droga: em doses adequadas é medicamento, mas se mal utilizada um veneno fatal. Tomar a palavra a todo o momento banaliza a imagem do político. É preciso saber a hora certa de falar e sempre o que dizer. Antecipar-se ao entendimento do eleitor é a saída. O discurso correto traz nas entrelinhas tudo àquilo que o votante quer e precisa ouvir. O segredo da boa comunicação está nos detalhes e na moderação da oratória: a época das acusações e apelações politiqueiras ficou para trás.

Modernas campanhas eleitorais são multidisciplinares e envolvem profissionais de diversas áreas das ciências sociais e humanas aplicadas: antropologia, sociologia, política, economia, administração e comunicação social. Não existe mais espaço para improvisos baseados em intuição ou acordos políticos. A era do candidato centralizador virou história.

O mercado eleitoral competitivo é composto por dois agentes básicos: candidato e eleitores. O candidato deseja do eleitor informação e voto: informação para criar programas de atuação política e o voto para chegar ao poder e desenvolver o seu programa. Por outro lado, o eleitor deseja do candidato uma boa comunicação e o cumprimento das propostas e dos favores.

O candidato é o elo entre as causas públicas e o eleitor. É a primeira vitrine dos partidos, das ideologias, das estratégias de marketing e de seus ideais. O candidato é o conteúdo, é um contexto amplo entre partido, ideologia, vida e sua participação na vida social. Os fatores que compõem um candidato são:
    • Potencial próprio: sua capacidade de liderança, suas habilidades, sua comunicação, sua habilidade de discurso e seu carisma. 
    • Fatores Internos de pressão: Grupo político (partido ou facção) e grupo de financiamento.
    • Fatores Externos de pressão: Eleitores e adversários.
O eleitor é uma incógnita a cada eleição. Por isso mesmo, um dos problemas mais clássicos da ciência política é estudar e determinar o padrão de comportamento dos eleitores. Como ele pensa e decide o seu voto? Existe algum motivo para a escolha do seu candidato, quais aspectos que padronizam essa escolha? No Brasil, através de alguns estudos realizados sobre o comportamento do eleitor, chegou-se a um consenso de que existem três leis fundamentais de posicionamento do eleitor, são elas:
    • Lei da Indiferença: Onde o eleitor, quando entra na cabine eleitoral põe fim a um difícil processo de tomada de decisão. Nessa hora ele se lembra de Pelé, de Sílvio Santos, do macaco Tião e de outras personalidades de forte presença em sua mente, menos nos candidatos, porque para ele, é tudo igual, é indiferente votar nesse ou naquele candidato.
    • Lei da Procrastinação: Representa o máximo adiamento. Sempre que pode, o eleitor adia sua decisão de voto para o período mais próximo da eleição. Cerca de 90% das pessoas ao dirigir-se a cabine eleitoral, já tem o seu candidato consolidado, mas 10% ainda entram para votar, com muita dúvida, são os procrastinadores e, esses podem decidir uma campanha mais acirrada.Lei da efemeridade: As idéias e aspirações da sociedade obedecem a um ciclo de vida determinado (corrupção, ecologia, violência, etc.).
    • Lei da efemeridade trata dos ciclos das idéias e aspirações, onde elas nascem, crescem, se desenvolvem, desgastam-se e desaparecem. Um candidato começar a defender uma causa ou uma idéia, ecologia, por exemplo, num momento em que o mundo inteiro não fala mais no assunto, é aderir a uma moda que aos olhos do eleitor já está ultrapassada, porque o mundo está preocupado neste momento é com o combate à violência.
Construindo uma campanha

Toda campanha visa conquistar o voto que é influenciado por três componentes distintos: ideológico, político e eleitoral.
    • Político - firmado de forma direta, numa relação pessoal entre candidato e eleitor. Em cidades pequenas esse fator é grande e chega a 80% da motivação dos votos.
    • Ideológico - influencia apenas uma pequena parcela dos eleitores. O discurso de esquerda, de direita, do socialismo ou liberalismo afeta pouco mais de 5% do eleitorado, atingindo o máximo de 10% no mercado nacional. 
    • Eleitoral - representa o esforço concentrado de conquista do eleitor, é o campo de atuação do marketing político. Sua influência cresce com o tamanho do universo eleitoral. Chega a atingir até 70% das decisões de voto.
Comunicação Estratégica

Cada dia que passa às pessoas são bombardeadas por milhões de informações e estímulos. É claro que elas não conseguem processar e reter todas as informações, o que acontece é que a mente simplifica o que é recebido, aceitando apenas aquilo que interessa. A arte de se fazer ouvir, de se comunicar e persuadir está na identificação do caminho mais rápido para a mente. A pirâmide de Maslow, por exemplo, fornece pistas para descobrirmos o melhor caminho. Segundo ele as reações das pessoas aos estímulos são determinadas basicamente pelas necessidades básicas (fisiológicas) até as mais elevadas (auto-realização).

A mídia eletrônica hoje é considerada de o “segundo deus” por sua onipresença e seu poder de influência sobre as pessoas. Cada veículo tem uma linguagem muito específica, mas quando se trata de televisão, a linguagem se aproxima bastante do cotidiano das pessoas, de forma simples e direta. O candidato deve estar ciente de que está invadindo a sala de estar dos eleitores, é nessa hora o equilíbrio e a moderação, devem fazer parte de seu comportamento, pois é como se ele estivesse conversando com o eleitor em sua casa. Por tanto, fique atento e saiba como agir:
    • O marketing político está relacionado com a formação da imagem a longo prazo. É utilizado por pessoas e políticos que desejam projetar-se publicamente.
    • Já o marketing eleitoral é de curto prazo. As estratégias e as táticas de comunicação são montadas em cima de um ambiente vivo, já existente, em andamento e não de um ambiente criado.

Princípios Estratégicos

    • Mantenha sempre um trunfo contra seus inimigos e saiba quando deve ser acionado;
    • Conheça o que pensa o eleitor, antes de partir para a sua conquista;
    • A melhor forma de conquistar a mente a mente do eleitor  é ser primeiro a chegar;
    • Não basta ter o perfil desejado pela população, é preciso associar sua imagem a ele antes dos adversários;
    • Trabalhe na linha de menor resistência ao posicionamento na mente do eleitor;
    • Procure maximizar os pontos favoráveis e minimizar as falhas, se possível convertendo-se em virtudes;
    • Procure antecipar o ciclo de idéias e aspirações que predominará no momento da eleição;
    • O eleitor sempre associará o candidato a continuidade ou mudança. Compatibilize sua imagem com a tendência predominante, respeitando os limites impostos por sua personalidade;
    • Concentre seu discurso na valorização e unidade do partido;
    • Convenção é sinal de força. Se for conveniente, antecipe a convenção;
    • Concentre forças no seu principal inimigo, não desperdice munição atirando para todos os lados;
    • Procure sempre antecipar-se aos movimentos de adversários que possam ameaçar sua posição antes que seja preciso reagir;
    • Confirme os defeitos do inimigo junto ao eleitorado. Ataque nesse ponto.
    • Procure demonstrar incoerência entre o discurso do candidato e seu passado;
    • Utilize a força de liderança para eliminar as possibilidades de reação do inimigo;
    • Redirecione forças para os segmentos que apresentam maior potencial de votos;
    • Se a polarização é inevitável, procure levar seu adversário para o campo que lhe seja mais favorável;
    • O político eficiente tem na “comunicação” seu amuleto de sorte. Um problema resolvido pode pôr tido a perder. Se o político se omite, não comunica, em determinadas ocasiões, ele deixa espaço para o crescimento da oposição e, conseqüentemente, para versões distorcidas de seus opositores.
Fique atento às pesquisas de opinião

Para Maquiavel “a realidade é como é, não como gostaríamos que ela fosse”. Portanto, fica clara a importância da pesquisa na vida do candidato e mais ainda na vida do eleitor. Os fatores de maior relevância a serem apurados são: a imagem do candidato, sua trajetória política, seu carisma e empatia com o eleitor, seu programa de governo, sua principal meta de governo, a sua profissão, seu partido político, seus apoiadores e o grupo social em que está inserido ou se identifica.

Na eleição, como na guerra, grande parte das batalhas é decidida em tempos de paz. A preparação da campanha inicia-se com a avaliação do eleitorado, do potencial próprio do candidato e de seus prováveis inimigos. Devemos, então, tomar como ferramentas três tipos de pesquisas aplicáveis ao marketing político objetivando avaliar o eleitorado:

  • Pesquisas de opinião pública procuram mensurar  o conhecimento da população sobre determinados assuntos como ecologia, privatização, AIDS, economia, política, área social e etc.
  • Pesquisas de acompanhamento e desempenho administrativo levantam os principais problemas da população, avaliam o desempenho dos governantes, aferem a imagem administrativa, o grau de conhecimento dos projetos e das obras realizadas e o grau de satisfação com os serviços públicos.
  • Pesquisas eleitorais, por sua vez, procuram detectar as intenções de voto do eleitor a cada momento, aferindo o potencial de adesão ou rejeição a cada candidato.


REFERÊNCIAS: VOTO É MARKETING, O RESTO É POLÍTICA. SEQÜELA, Jacques. Edições Loyola

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Coisa de Brasileiro?

Você certamente já deve ter ouvido falar ou conhece alguém do tipo insatisfeito: aquele sujeito que reclama de tudo e é sempre do contra. Pra ele nada está bom! Se tá calor o cara quer frio. Se você traz um doce ele diz que está de dieta, mas não deixa de lado o cafezinho melado! Se a turma combina pra ir ao cinema ele diz que vai fazer uma pipoquinha e assistir um filminho em casa mesmo, embora todo dia reclame das repetições tão comuns na televisão.

O pior de tudo é que além de rabugento o sujeito é descansado. Reclama da política, mas a cada eleição repete o voto. Fala mal do pãozinho da esquina, mas tem preguiça de andar até a outra padaria onde o francês sai quentinho de hora em hora. Não gosta do emprego e da empresa em que trabalha, mas na maioria dos casos pede aposentadoria ao patrão que assinou sua carteira há mais de trinta anos. Reclama dos juros, mas não sai de casa sem o maldito cartão de crédito.

Dizem que está no DNA de quem nasce nesta terra esperar pelo outro e pôr a culpa em alguém. Pedro Paulo reclama todo santo dia da conta de luz. Diz que o governo é pilantra, corrupto e que sobretaxa a energia há pelo menos 16 anos. Mas, dias desses, tive que o esperar por cerca de trinta minutos enquanto ele relaxava debaixo de um chuveiro elétrico pra se livrar do estresse! O cara é maluco, quase um psicopata. É também descarado. Veja você que quando saiu do banho, na maior nice, depois de gastar milhões, o malandro se revoltou com  o filho só porque o garoto tinha ligado um ventiladorzinho pra se refrescar dos quase 40 graus que torrava o Rio naquela sexta-feira de verão. Aos berros, ele exigia economia! Pode?

A mulher, dondoca frustrada, já que sempre colocou o chapéu além do alcance, todo mês gasta os tubos com gasolina para ir bater-perna no Centro da cidade, embora o metrô que passa na sua porta faça a mesma viagem em menor tempo e por preço muito inferior. Ela diz que andar de coletivo é coisa de pobre e que é de classe média; pelo menos acredita! Se vivesse na Europa certamente pensaria diferente: por lá as pessoas estão mais preocupadas com a coletividade e a sustentabilidade financeira e ambiental.

No estrangeiro, comodismo e ostentação soam mal e cada uma faz a sua parte. Por aqui a tal da lei do Gerson ainda é moda. Gente que se diz bacana, séria e compromissada, e que até reclama da corrupção, não vê qualquer problema em fazer um gatinho na luz, desviar o sinal de TV a cabo, subornar alguém na fila, o guarda no trânsito ou o funcionário público pra liberação de um documento digamos rasurado! Isso é ou não é ser do contra? Ver todo isso e não falar ou fazer nada é ou não é comodismo?

Coisa de brasileiro?                          

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Vil Metal


Todo dia era assim. Antes que o sol batesse à janela, Carlos Alberto estava de pé. Às 5h30, já tinha tomado banho, escovado os dentes e afiado a língua; afinal de contas sua jornada começava cedo e cada minuto precisava ser produtivo. Como de costume, o empresário, dono de um grande jornal, acordava a casa com seus berros.

Ora queria saber onde estava a roupa do dia, embora estivesse sempre ali: passada e pronta para o uso na porta do meio de seu guarda-roupas: um móvel rústico talhado em madeira de lei. Noutro momento cobrava da mulher as chaves do carro que, como de costume, a cada dia amanheciam em lugar diferente por causa da sua desorganização.

Ninguém entendia o porquê de tanto estresse. Nem havia completado cinquenta anos e já vivia uma realidade bem diferente da maioria dos colegas de infância. Nascido em uma comunidade pobre da baixada fluminense, no Rio de Janeiro, o empresário de alta estatura, cabelos grisalhos e porte atlético, circulava pela cidade num carrão de luxo importado. Usava roupas de grife e mantinha na gaveta perfumes caros; daqueles que só homens de negócio costumam usar.

Sua cobertura, um duplex de frente pro mar da zona oeste, chamava a atenção de quem passeava pela orla; nem de longe lembrava a casinha sem reboco onde ele e o irmão Antônio cresceram.
A Gazeta Fluminense, que comandava com pulso forte, estava entre as mais bem-sucedidas empresas de comunicação do Estado e vivia dias bem diferentes daqueles quando Carlos Alberto, ainda recém-formado no ensino médio foi transformado em executivo de vendas do jornal.

A infância

Carlos Alberto Dantas nasceu no dia 21 de junho de 1970, em Nova Iguaçu, no Rio, duas horas depois do Brasil vencer a Itália por 4 x 1 e conquistar sua terceira copa do Mundo, no México.  Mesmo dia em que os pais completavam três anos de casados. Seu nome foi uma homenagem ao eterno capitão Carlos Alberto Torres.

Filho de Francisco Dantas, um lavrador criado no cabo da enxada no sertão de Pernambuco, e de Joana, diarista, o menino sempre soube que só com trabalho um homem pode ganhar a vida. O pai acordava cedo todos os dias. Às quatro da manhã, estava de pé preparando o cafezinho que vendia no trem a caminho do trabalho. Era jardineiro na casa dos Lacerda desde 1960, quando chegou no Rio de Janeiro fugindo da seca do nordeste. Nem nos dias de folga o homem descansava: quando não estava na capina podia ser visto lavando carros ou vendendo picolés pela rua. Uma rotina quebrada no dia treze de maio de 1983.

Carlos e o pai estavam em casa quando o telefone tocou. Era Juvenal Lacerda, o patrão, que sem meias palavras foi logo informando da morte de Antônio.

- Francisco, aqui é o Juvenal.
- Boa tarde doutor. Olha, eu num fui trabalhar porque...

           O Caxias que pela primeira vez havia faltado o trabalho foi logo interrompido:

- Escuta, homem, sobre isso a gente fala depois. O negócio é o seguinte: Toninho morreu.
- O quê?, perguntou Francisco sem acreditar.
- Ele estava limpando o jardim e meteu a enxada no fio do refletor. Ai já viu, né? Tomou um choque de 220 volts e não resistiu.

Antes que o patrão terminasse a conversa, seu Francisco sentiu uma pontada no peito e caiu. Desesperado, o filho de apenas treze anos de idade só conseguia gritar: acorda papai, acorda! Foram os dez minutos mais longos de sua vida. O menino chorava, pedia socorro, mas ninguém ouvia. Dona Joana que voltava de mais uma faxina escutou os gritos ainda do portão. Assustada, entrou correndo e encontrou o filho em estado de choque. Voltou pra rua, pediu ajuda, mas era tarde demais: o marido estava morto. Num instante de lucidez decidiu ligar para o patrão dele e pedir socorro. Foi exatamente quando Juvenal chegou. Como tinha achado estranho o silêncio do empregado ao telefone decidiu vir e contar do ocorrido pessoalmente. Chegando foi surpreendido pelo destino: agora, além de informar o desencarne de Antônio precisava consolar a mãe e o caçula pelas duas perdas.

Na manhã seguinte, pai e filho foram enterrados.

O baque foi tão forte que mudou pra sempre a vida da família. Carlos Alberto que sempre foi um doce com a mãe se fechou. Passava a maior parte do dia na escola e em casa ficava trancando no quarto: não queria ver ninguém. Foram dias de silêncio até que conheceu Maria, a primeira namorada. Uma morena bonita, de cabelos longos e negros, que chamavam a atenção. Tinha 15 anos, morava no mesmo bairro e frequentava a mesma escola. Três anos de namoro até que decidiram deixar a casa dos pais, sem se pedir permissão, e fugiram pra viver juntos.

Conquistando a vida

O jovem que nunca tinha pegado no batente agora precisava arrumar trabalho. Com o diploma de técnico em administração chancelado pela Escola Municipal Monteiro Lobato, uma das mais respeitadas da baixada, foi até a Gazeta Fluminense falar com o velho Juvenal, ex-patrão do pai. Ele era o dono do jornal fundado na década de trinta e que já tivera em seus quadros jornalistas ilustres como Machado de Assis e Rui Barbosa.

O momento não era bom. A empresa estava atolada em dívidas, tinha reduzido em 50% o número de trabalhadores e remanejado os últimos dez funcionários para manter o jornal circulando. Mesmo assim, surgiu uma proposta desafiadora: ao invés de salário mensal o jovem trabalharia como executivo de vendas ganhando 20% sobre a venda dos jornais e nada além. O ano era 1998 e o diário mais tradicional de Nova Iguaçu precisava de um novo gás.

Naquela época, conseguir anunciantes era como encontrar uma agulha no palheiro. A internet ganhava força, atraia cada vez mais leitores e tirava dos impressos a verba publicitária. Jornais como o JB, um dos primeiros e mais respeitados, já migravam para versão on-line. Mas a Gazeta teimava em resistir.

Sem pestanejar o garoto aceitou a proposta. Tinha aprendido com o pai que só com trabalho se vence e que um homem não pode ter medo dos desafios que vida lhe impõe. Impôs apenas uma condição: a estratégia de vendas seria de sua total responsabilidade e ele não aceitaria interferências da chefia. Negócio fechado!

No dia seguinte, às sete da manhã, o novo executivo estava na Gazeta. Procurou o patrão e apresentou suas armas; estava disposto a adaptar promoções do comércio local pra vender propagandas. Faria assim: os antigos anunciantes que quisessem manter suas propagandas ganhariam de brinde um segundo anúncio, do mesmo tamanho do contratado, em outra página do jornal. Chamou a promoção de Dobradinha, do tipo pague um e leve dois.  Ora, se anúncio tem o objetivo atrair o maior número de consumidores, com mais exibições maiores as chances de convencê-los!

Para atrair novos clientes a estratégia seria diferente: consultoria especializada. Pra reduzir os custos do anunciante a própria equipe da Gazeta elaboraria sua propaganda e o ajudaria a escolher a melhor página para veiculação de acordo com o público alvo, evitando pra eles gastos com uma agência especializada. Além disso, o cliente ganharia uma publicação grátis a cada duas negociadas. Se contratasse quatro dias de publicação, por exemplo, teria sua mídia veiculada de segunda a sábado, seis vezes. Caso quisesse anunciar também no domingo ganharia desconto de 5% no preço total nos contratos de no mínimo três meses.

Mas pra tudo funcionar direitinho, a empresa precisava garantir que o jornal chegasse sem atraso às mãos do leitor, afinal de contas o impresso circulava nos 13 municípios da baixada fluminense, uma área enorme pra ser coberta. Pra evitar problemas, o novo executivo que tinha passado a noite estudando tudo sobre distribuição de jornais já tinha um plano.

Nos bairros com maior número de assinantes a entrega passaria a ser feita até às seis da manhã garantindo que o leitor recebesse o jornal antes de sair de casa e começasse o dia bem informado. Nas demais áreas, incluindo as regiões de comércio, os exemplares estariam nas bancas até às 7h. Assim, a caminho do trabalho qualquer pessoa poderia comprar a Gazeta Fluminense e ficar por dentro das novidades do dia.

A empresa faria um acordo com os donos das bancas para que seus exemplares fossem estrategicamente pendurados na parte externa das bancas deixando suas principais manchetes às vistas do público: capa boa atrai curiosos que compram o jornal. De ouvidos sempre atentos, o novo estrategista tinha escutado esta frase no dia anterior quando passava pela redação durante uma reunião de pauta. E cá pra nós, visibilidade, neste ramo, é alma do negócio!

Quando acabaram as explicações, o velho Juvenal se deu conta de que tinha acertado em cheio na contratação. O rapaz tinha jeito pra coisa; parecia até ter nascido em uma família de comerciantes e não de um jardineiro com uma doméstica. Seus filhos que estudaram nas melhores escolas e cresceram dentro da empresa nunca apresentaram uma estratégia pra garantir vivo o negócio que iriam herdar.

A grande virada

Foram dois anos de muito trabalho, mas no final tudo deu certo. As vendas triplicaram e a Gazeta Fluminense voltou a ser o maior jornal da baixada fluminense. Com a conta bancária em alta, no dia 7 de setembro de 2000, Carlos Alberto Dantas deu o grito de independência: chamou o patrão e o convenceu a pendurar as chuteiras aos 85 anos de idade. Por cerca de R$ 300 mil lhe comprou o diário e se tornou o mais novo magnata da comunicação.

Com o nome consolidado e de olho no mercado virtual a Gazeta ganhou sua versão on-line. Um site moderno, de visual arrojado, com notícias dinâmicas, correspondentes no exterior, fotografias em alta definição, blogs dos principais colunistas do Estado e uma WebTV. O sistema de buscas permitia acesso a todos os jornais desde a primeira edição impressa. Em pouco tempo, o GF.com passou a ser o portal de notícias mais visitado do Rio e, de quebra, o de melhor resultado financeiro. De pobre menino da Baixada, o agora Dr. Carlos Alberto era o mais respeitado empresário das comunicações no Rio de Janeiro.

Vida nova, hábitos novos e a arrogância peculiar àqueles que tudo têm às mãos. Com dinheiro no bolso vieram os bens materiais e a mudança de personalidade. O jovem que adorava os amigos, tinha ideais trabalhistas e queria um mundo mais justo e igualitário, agora só pensava no lucro. Entrava e saia da empresa sem dar bom dia: relacionamento amigável só com funcionários do alto escalão e grandes clientes.

Em casa, a rotina também mudou. O bate-papo com a mulher, o filminho em família, as brincadeiras com os filhos não aconteciam mais: o poderoso chefão não tinha tempo pra conversas fiadas. Toda vez que Junior pedia ao pai pra jogar com ele uma partida de vídeo game, por exemplo, a desculpa era sempre o cansaço. Afinal de contas, no dia seguinte o homem de negócios tinha que multiplicar a fortuna pra garantir o conforto de todos! Levantar cedo, acordar as crianças e tomar café com eles, quando tinha tempo, eram os carinhos que lhe bastavam. A paixão pela esposa havia se resumido a um beijo de despedida quando ela insistia.

O casamento se arrastou assim por cerca de cinco anos até que depois mais um round de xingamentos e agressões físicas, Maria decidiu ir embora. Juntou algumas roupas, documentos, pegou os filhos e saiu sem dizer uma só palavra. Carlos que estava na sala, agarrado à garrafa do seu escocês preferido, não viu a família sair. Bêbedo, ali mesmo dormiu.

No dia seguinte, quando mais uma vez queria saber onde estava sua camisa de linho branco, percebeu que algo estava diferente. Seus gritos não tinham resposta. Procurou por toda a casa e não encontrou a mulher. Foi ao quarto das crianças e os filhos não estavam lá. Ligou pro celular, mas a esposa não atendeu. Meia hora depois, vestiu as roupas que encontrou, passou seu melhor perfume, entrou no carro e foi trabalhar.

Os dias seguiram e a bela mansão da Avenida Lúcio Costa, construída para dar conforto à família, receber amigos e ostentar o sucesso do Dr. Carlos Alberto perdeu seu brilho. Apenas os empregados, que chegavam cedo e saiam antes do patrão voltar, frequentavam a casa.

No natal de 2015 uma ligação telefônica quebrou o silêncio: era um vizinho dos tempos em que Carlos ainda morava com mãe que ele não a via desde que deixou sua casa pra morar com a namorada. Sem meias palavras o homem foi logo falando que dona Joana havia morrido. Não deu detalhes, disse apenas que foi de infarto e que o corpo seria enterrado por volta das três da tarde no mesmo cemitério onde aos treze anos de idade ele tinha sepultado o pai e o irmão mais velho. A ligação caiu e o silêncio tomou conta da casa.

Quando deu por si, Carlos estava atônito, revirando caixas, gavetas, pastas de documentos tentando encontrar uma foto da mãe... Aos prantos gritava pela mulher que não estava ali: Maria, cadê as fotos de mamãe? Cadê as fotos Maria?.... Maria... Mariahhhhhhh.

De repente, encontrou uma fotografia do aniversário de dez anos do filho Junior, completados pouco antes da separação. O menino sorrindo em nada lembrava a criança triste pra quem o pai não tinha tempo. Cenas das brigas sem motivo, dos gritos, empurrões... da falta de paciência lhe tumultuavam a cabeça. Carlos estava sem chão, sentindo-se fraco, frágil, infeliz!


Tomou consciência de que não tinha mais ninguém. Estava sozinho, havia trocado os carinhos dos filhos, os afagos de Maria, o bate-papo em família pela ilusão de poder que o dinheiro traz. Foi preciso morrer a mãe pro filho acordar pra vida!