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terça-feira, 19 de julho de 2016

Rio Maravilha

Naquele domingo tudo parecia perfeito. No Rio, os termômetros marcavam 35 graus. O céu estava azul e uma leve brisa soprava nos rostos cariocas mais dispostos. Era certo, daria praia. Como de costume corri ao supermercado, comprei uns biscoitos, água de coco - que no playground carioca anda pela hora da morte, e, é claro, algumas cervejinhas. Afinal de contas, Ipanema sem a loira gelada é como namoro sem beijo na boca.

Tudo parecia perfeito não fosse aquele brutamontes com seu PitBull se achando o dono do pedaço. Mal coloquei os pés a areia e a primeira surpresa: uma bomba deixada pelo monstro de quatro patas. Não sabia quem era mais desatento: o quadrúpede ou o animal que o cria.

O Arpoador de areias claras e ondas maliciosas já não era mais o mesmo; nem de longe lembrava o paraíso da minha infância! Naquela época, sempre que chegava à orla era recebido com a música do vendedor de Mate "olha o mate, Mate Leão", os gritos do homem do picolé "olha ae o picolé... ô gelado!" e pelos insistentes chamados do Carlinhos do Queijo Coalho tentando convencer meu pai a matar a fome e os desejos da garotada "ô seu Cezar, os menino tá com água na boca!". A criançada se divertia jogando bola e construindo seus castelinhos de areia. Já os marmanjos... Esses passavam o tempo praticando uma especialidade carioca: analisar a mulherada!

Hoje está tudo diferente. O cheiro do camarão na brasa deu lugar ao da urina dos bêbados apressados e dos cães desavisados que usam a praia como sanitário. A criançada não arreda os pés de perto dos pais isoladas em seus mundinhos virtuais. A conversa tranquila deu lugar à preocupação com os arrastões agora tão comuns. Nem parece que estamos naquela cidade que um dia pôde se orgulhar de ser chamada de maravilhosa!

Se meu pai estivesse vivo certamente iria reclamar. Ele que sempre gostou de correr com os pés molhados hoje teria de tomar cuidado pra não cortá-los nas garrafas esquecidas na areia. Ambientalista engajado certamente denunciaria a prefeitura por tamanho descaso: ora, onde já se viu manchar um cartão postal com restos de comida, lixo e falta de vontade política? Ainda bem que o velho Cezar descansou: ele não aguentaria ver seu Rio assim.

Nos dias de hoje vale mais à pena ficar em casa. Rio Maravilha só nas canções do Jobim ou nas telas da TV.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Quem sabe faz a hora

- Ah, eu até queria a vaga, mas moro longe...
- Onde?
- Uns cinco quilômetros daí.
- Só isso? Rapaz dá pra vir a pé!
- É... Mas eu teria que sair de casa bem mais cedo...

Assim terminavam as explicações daquele que durante uma semana tinha tomado o tempo de um contratante em busca de vaga. O candidato tinha feito de tudo pra conseguir uma entrevista, mas na hora H... Numa das conversas, chegou a pedir “por favor”, sob a alegação de que era arrimo de família.

-Seu Victor, me deixe fazer o teste. Preciso trabalhar, sou eu quem sustento minha mãe e ajudo a criar dois irmãos. Estou desempregado há quase um ano, vivendo de bicos. Deixa eu tentar, por favor?

Não dá mesmo pra entender. Todos os dias os noticiários contavam da crise econômica e dos milhões de brasileiros desempregados. Gente diplomada tentando vagas em outras áreas, abaixo de suas qualificações, e aquele cidadão se dando ao desfrute.

Era 2016. O setor das comunicações estava “numa crise daquelas” e, ainda assim, uma emissora paulistana tentava a todo custo contratar jornalistas. Tinha colocado anúncios em jornais, carros de som e nas redes sociais. Um deles dizia: “Vaga para jornalista, mesmo sem experiência. Salário de R$ 2.800 + benefícios. Jornada de 30h semanais”. Mesmo assim, não aparecia ninguém. Intrigado, o diretor de jornalismo se perguntava o que estava acontecendo. Naquela ocasião a oportunidade era “uma bocada”!

Por muitas vezes, Victor se pegava pensando em sua própria história. Aos dezoito anos, ele saía de casa às 4h30 da matina e só retornava por volta da meia-noite. Servia à Marinha do Brasil e cursava jornalismo numa universidade distante do local de trabalho e de sua casa. Passava mais tempo no trânsito e nos seus afazeres que com a família. Não tinha tempo nem pra namorar! Um dia, perguntado pelo patrão do porquê da vaga ainda está em aberto, respondeu:

- Sabe doutor, quando era jovem, acordava muito cedo. Engolia o café da manhã e partia pro ponto de ônibus pra não perder a condução e correr o risco de ficar preso no quartel: o horário era rígido! Morava em Nova Iguaçu, servia na Ilha do Governador e estudava em São Gonçalo, no Rio de Janeiro.

Atento, Rosevaldo Chagas ouvia aquele testemunho.

- De casa ao quartel eram 35 quilômetros. De lá pra faculdade outros 38 e de volta pra casa 57,6 contatos! Percorria todos os dias 261 quilômetros entre idas e vidas, trocando de coletivos, pra tentar ganhar a vida e sem reclamar.

-Nossa!
- Não foi fácil chegar até aqui. Ai me vem um cidadão suplicando emprego com toda aquela conversa triste e no dia da entrevista liga dizendo que não tem mais interesse na vaga porque a empresa é longe demais... Ora bolas, de bicicleta ele levaria cerca de dez minutos de casa até aqui. A pé no máximo 40, andando a passos de tartaruga!

No fim da conversa, Chagas não sabia o que dizer, mas começou a olhar diferente para aquele funcionário. Estava diante de um profissional que depois de ter passado por toda esta dificuldade ainda estava a mais de 700 quilômetros de sua família pra fazer valer seu diploma e ajudar a levantar o jornalismo da empresa.

Quando voltou pra casa não perdeu tempo. Antes que o filho abrisse a boca pra reclamar mais uma vez de ter que acordar cedo pra estudar foi enfático.

- Júnior, meu filho, agora que já jantou escove os dentes e cama!
- Mas, pai... Não quero ir pra escola amanhã, tô cansado!
- Se você quiser ser alguém, meu filho, vai ter que aprender a se esforçar. A vida é feita de dificuldades, meu caro, e pra tudo tem um preço. Trata de ir pra cama e agradecer por ter uma família que te dá casa, comida, educação e escola sem que você precise mover uma palha pra tudo isso. Eu não estarei aqui pra sempre, Junior.
- Mas pai...
- Vai pra cama, meu filho. Estude e aproveite todas oportunidades da vida. Amanhã, quando for adulto, pai de família, um homem de verdade, vai me agradecer e poderá ser um exemplo para seus filhos.


No dia seguinte, o empresário voltou ao labuta certo de que logo a vaga seria preenchida, já que havia escolhido um gestor que sabia o valor que o trabalho tem para um homem.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Coisa de Brasileiro?

Você certamente já deve ter ouvido falar ou conhece alguém do tipo insatisfeito: aquele sujeito que reclama de tudo e é sempre do contra. Pra ele nada está bom! Se tá calor o cara quer frio. Se você traz um doce ele diz que está de dieta, mas não deixa de lado o cafezinho melado! Se a turma combina pra ir ao cinema ele diz que vai fazer uma pipoquinha e assistir um filminho em casa mesmo, embora todo dia reclame das repetições tão comuns na televisão.

O pior de tudo é que além de rabugento o sujeito é descansado. Reclama da política, mas a cada eleição repete o voto. Fala mal do pãozinho da esquina, mas tem preguiça de andar até a outra padaria onde o francês sai quentinho de hora em hora. Não gosta do emprego e da empresa em que trabalha, mas na maioria dos casos pede aposentadoria ao patrão que assinou sua carteira há mais de trinta anos. Reclama dos juros, mas não sai de casa sem o maldito cartão de crédito.

Dizem que está no DNA de quem nasce nesta terra esperar pelo outro e pôr a culpa em alguém. Pedro Paulo reclama todo santo dia da conta de luz. Diz que o governo é pilantra, corrupto e que sobretaxa a energia há pelo menos 16 anos. Mas, dias desses, tive que o esperar por cerca de trinta minutos enquanto ele relaxava debaixo de um chuveiro elétrico pra se livrar do estresse! O cara é maluco, quase um psicopata. É também descarado. Veja você que quando saiu do banho, na maior nice, depois de gastar milhões, o malandro se revoltou com  o filho só porque o garoto tinha ligado um ventiladorzinho pra se refrescar dos quase 40 graus que torrava o Rio naquela sexta-feira de verão. Aos berros, ele exigia economia! Pode?

A mulher, dondoca frustrada, já que sempre colocou o chapéu além do alcance, todo mês gasta os tubos com gasolina para ir bater-perna no Centro da cidade, embora o metrô que passa na sua porta faça a mesma viagem em menor tempo e por preço muito inferior. Ela diz que andar de coletivo é coisa de pobre e que é de classe média; pelo menos acredita! Se vivesse na Europa certamente pensaria diferente: por lá as pessoas estão mais preocupadas com a coletividade e a sustentabilidade financeira e ambiental.

No estrangeiro, comodismo e ostentação soam mal e cada uma faz a sua parte. Por aqui a tal da lei do Gerson ainda é moda. Gente que se diz bacana, séria e compromissada, e que até reclama da corrupção, não vê qualquer problema em fazer um gatinho na luz, desviar o sinal de TV a cabo, subornar alguém na fila, o guarda no trânsito ou o funcionário público pra liberação de um documento digamos rasurado! Isso é ou não é ser do contra? Ver todo isso e não falar ou fazer nada é ou não é comodismo?

Coisa de brasileiro?                          

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Brasil. O paraíso da corrupção


Depois de tanta luta finalmente chegamos a era em que um cidadão vindo do operariado assume a presidência do país e nos faz acreditar que não mais seremos paus mandados da elite engravatada e arrogante que durante anos geriu da forma que mais lhe convinha a administração do Brasil. Foi bom ver que o povo está consciente e que não vende mais seu voto em troca de santinhos ou dentaduras. Mas, infelizmente, nem tudo é perfeito. De repente, acordo e leio nas manchetes dos jornais que Antônio Carlos Magalhães e Jader Barbalho voltaram ao Congresso Nacional. Pior ainda, ACM queria ser presidente do Senado. Há pouco tempo, tanto ele quanto o Barbalho renunciaram aos seus cargos, acusados de corrupção, para não se tornarem inelegíveis e agora voltarem para o mesmo lugar de onde saíram como se nada tivesse acontecido. Agora, ACM vive um novo dilema: ser cassação ou renúncia! Coisas do Brasil.

No Rio de Janeiro, foi desmascarado mais um corrupto que precisou de apenas três anos no governo para desviar alguns milhões de dólares dos cofres públicos para o exterior. Um tal de Silveirinha, fiscal da receita estadual. História que me remete aos velhos anões do orçamento. Lembram deles? Naquela ocasião, o fruto do roubo do INSS também havia sido mandado para paraísos fiscais como a Suíça. Grande parte daquele dinheiro até hoje não se conseguiu recuperar. Daquela corja fazia parte o deputado Francisco Alves que subjetivava minha inteligência dizendo que sua fortuna era fruto de muita sorte no jogo. Segundo ele, Deus o havia abençoado com várias premiações na Loteria Federal. Mais tarde veio o “Lalau”. Um juiz pago pelo povo para defender o Direito que não soube direito como explicar o desvio de verbas da construção do Tribunal Regional do Trabalho, em São Paulo.

Parei para pensar e vi que tudo continua como antes. Aqui no Rio de Janeiro os servidores fecharam os hospitais, as escolas e a universidade do Estado cobrando do executivo o pagamento do décimo terceiro salário que até hoje não saiu. A governadora Rosinha Matheus, culpa Benedita da Silva, sua antecessora, pelo déficit público causado pela má administração dos recursos estaduais. Mas Bené agora nem rebate as acusações, anda ocupada demais comandando um ministério “social” no governo federal. Enquanto isso, a CPI da corrupção instaurada pela Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro sugere que o marido da Rosinha, o Garotinho, também tem culpa no cartório. Afinal, foi durante seus três anos de governo que a Inspetoria de Grandes Contribuintes foi criada, o que culminou com o desvio de R$ 33 milhões dos cofres estaduais. Foi de lá que saiu o tal Silveirinha que segundo Garotinho era apenas “o sub do sub”.

Sem saber mais o que dizer para ao funcionalismo estadual, a Rosinha se tornou uma metralhadora giratória. Ora põe a culpa na Bené, ora no Palocci, alegando que o décimo terceiro não sai porque o governo federal não está tratando o Rio de Janeiro com o mesmo dengo que trata aos outros Estados. Ora bolas: ele quer que a União libere o Estado da obrigação de repasse dos recursos oriundos do ICMS carioca. Mas veja: se todos os Estados deixarem de cumprir suas obrigações fiscais para com a União de que viverá o país? Deixemos, então, que os servidores encontrem os culpados pelo não pagamento de direitos trabalhistas.Mas tentarei ser outra vez um otimista e acreditar num futuro melhor para o Brasil. É o que me resta, afinal sou brasileiro, com muito orgulho e com muito amor. Não me permito acreditar que um presidente vindo do povo possa passar para o outro lado só porque agora ele tem estilista para calçados personalizados, escreve com Pena e veste Armani.