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sábado, 31 de dezembro de 2016

A farsa

“Mentiram-me. Mentiram-me ontem e hoje mentem novamente. Mentem de corpo e alma, completamente. E mentem de maneira tão pungente que acho que mentem sinceramente. Mentem, sobretudo, impune/mente.”

Quando ouvi Affonso Romano de Sant'Anna dizer isto, logo me dei conta da política do meu país. Por aqui, infelizmente, “mentem tão nacional/mente que acham que mentindo história afora vão enganar a morte eterna/mente.”

Mentiram quando disseram, em 1988, que o país era democrático e que o voto a partir de então seria livre. Mentira: ainda hoje os coronéis obrigam o povo ao cabresto quando chega "a  urna."

Mentiram quando disseram que a partir da Constituição os direitos seriam iguais. Mentira: ainda hoje, vemos crianças fora da escola; homens e mulheres passando fome; famílias inteiras sem ter onde morar; mendicância nas filas do atendimento público de saúde; 13 milhões de brasileiros desempregados e outros tantos no subemprego.

Mentiram quando falaram da liberdade de expressão. Mentira: ainda hoje jornalistas são perseguidos. Gays, lésbicas e simpatizantes hostilizados nas ruas por que amam diferente daqueles que acham normal apenas uma forma de amor.

Mentiram quando disseram que educação era obrigação do Estado e direito de todo cidadão. Mentira: ainda hoje adultos morrem analfabetos sem sequer poderem assinar seus nomes. Crianças chegam ao ensino médio sem conhecer direito as básicas operações matemáticas. Professores nos rincões de pobreza do país são analfabetos funcionais.

Mentiram quando disseram que o Brasil é a pátria de todos. Mentira: ainda hoje Amarildos, Silvas e Marias vivem num país desigual onde a pobreza é vista por PMs despreparados como sinônimo de bandidagem. E por isso, estes desfavorecidos das favelas cariocas são presos, apanham e choram tentando provar inocência sob a acusação de tráfico.

Mentiram quando inventaram que brasileiro gosta de pão e circo. Mentira: não gostamos, aceitamos pra não morrer de tanto chorar vivendo num país tão desigual.

“Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura. Mas não se chega à verdade pela mentira, nem à democracia pela ditadura”, já dizia o poeta Affonso Romano de Sant'Anna.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

E a tal da inspiração, de onde vem?

Era terça-feira, mas não uma terça qualquer. Aquela era especial. Afinal de contas, era dia de contar estórias. Naquela sala coral estavam reunidos os melhores aprendizes das letras. Tinha gente de Campos, de Nova Iguaçu e até da Bahia. Atentos, os novos escritores tentavam entender nas entrelinhas de Armando Nogueira como fazer de um texto uma crônica esportiva.

Nas prosas do craque tudo chamava a atenção: a bola, o gramado, os uniformes e a conversa alta dos meninos em um campinho da Baixada Fluminense. Cada palavra, atitude ou gesto usados por Armando precisavam ser atentamente observados pelos alunos da professora Edda, já que os elementos eram tijolinhos daquela construção literária. Estava tudo perfeito. Sentia-me como se ainda estivesse na sala da tia Marilda que durante o primário me convidava a navegar no mar da literatura brasileira. De repente, um barulho:

- Que que é pra fazer, Joana? Perguntava um certo funcionário da instituição que nos presentava com aquela oficina de prosa.

Teve gente que não se abalou e continuou vidrado nas crônicas do Armando. Mas eu, jornalista, sempre prezei pelo silêncio na hora de escrever e fiquei irritado. Como podia alguém interromper uma aula de forma truculenta e descabida? Ora bolas, um desrespeito sem tamanho! Aquele sujeito tinha atrapalhado nossa terça-feira especial simplesmente para retirar da sala uma lousa que seria usada num outro dia, por uma outra turma qualquer; não pela nosso seleto grupo de aprendizes!

De repente me veio à cabeça as aulas no Colégio Leopoldo. Lembro-me como se fosse hoje: ai de quem interrompesse a professora Marilda por um motivo tão banal. Seria logo taxado de mal-educado e convidado a se retirar. Ainda mais se o tema fosse crônicas esportivas de Fernando Calazans, Armando Nogueira ou Nelson Rodrigues. Todos craques da literatura contemporânea.

Passado o susto, voltei aos estudos e reli: a crônica é um texto em primeira ou terceira pessoa, escrito em prosa. Narrativo e descritivo, às vezes cronológico e quase sempre de teor contemporâneo. Muitas vezes usa da metalinguagem e sempre que possível abusa de outras figuras de linguagem. No bojo, são textos atuais.

Dei-me conta que a entrada triunfal daquele servidor do SESC não havia sido de todo ruim; na verdade não fora. Ao contrário, foi um grande presente do acaso. Relatar toda aquela situação era a inspiração que me faltava para escrever esta minha primeira crônica.

terça-feira, 26 de julho de 2016

SUS bate à porta da UTI

Que a saúde pública anda mal das pernas e precisando de atendimento em UTI todo mundo já sabe, menos o secretário de governo de Campos dos Goytacazes. Enquanto passa o tempo em articulações politico-eleitorais, o coitadinho não tem tempo para averiguar, de verdade, como andam as unidades municipais de saúde.

Em um jornal, supostamente de sua propriedade, disse ele ter recebido denúncias de moradores do bairro Jardim Carioca, em Guarus, de que no Posto de Urgência (PU) faltavam médicos: péssima notícia pra quem nunca sabe o que fazer a cada taquicardia ou palidez. O bonitinho das ocasiões especiais tomou tento, foi lá e viu com os próprios olhos que dos oito profissionais do plantão apenas dois estavam em serviço. Teve tempo ainda de verificar problemas no aparelho de raio-x, no sistema de ar-condicionado e percebeu que faltavam alguns medicamentos na farmácia pública. O problema é que estas dificuldades que só agora viu já estão pra se aposentar.

No PU tudo parece precário. O local em nada lembra um Posto de Urgências médicas. As paredes estão sem reboco em vários pontos e em outros há mofo: onde ainda há tinta ela está escondida pela sujeira. Os banheiros mais parecem fossas destampadas de tanto que fedem. Nos corredores 'cinzas' pacientes com diferentes diagnósticos ficam amontoados. O mais grave: crianças que aguardam atendimento pediátrico dividem o mesmo corredor.

Dia desses, uma senhora de 37 anos, moradora do Centro, com tonturas, náuseas, diarreia e muita dor no corpo chegou à unidade. Foi atendida por um médico que apenas a mandou tomar soro de reposição sódica nas veias. Quando chegou à sala de repouso feminino verificou que as macas/camas não tinham lençóis limpos, aliás apenas duas mantinham seus colchões rasgados cobertos por pedaços de pano usados por outros pacientes antes dela chegar.

Logo que foi medicada, a tal senhora teve uma crise e correu pro sanitário, mas pra sua surpresa não havia papel higiênico. O banheiro estava sujo e não havia nem sabão para os pacientes lavarem as mãos após suas necessidades. O marido correu à enfermaria para reclamar e se revoltou com a notícia de que banheiro sujo por ali é coisa comum. A falta de material pra higiene dos pacientes também. 
Semanas antes ele mesmo havia estado na unidade com uma infecção de pele e teve que recorrer à farmácia comercial que fica em frente ao PU para comprar a Benzetacil que iria tomar.

Já pensou se o paciente fosse o tal secretário de governo que vive às voltas com suas crises nervosas e ataques súbitos de histeria quando é contrariado por alguém?

Parece brincadeira de menino levado que fica por ai contando mentiras só pra sacanear os inimigos, mas não é. A saúde pública vive seus piores dias e só não vê quem não quer. Sabe por quê? Vou te contar: acompanhar o dia-a-dia  e corrigir problemas administrativos só dá Ibope em época de campanha eleitoral. Além disso, quem cuida do SUS não utiliza seus serviços quando a doença aparece. copel teste

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A vida como ela ainda é...

Todo dia era a mesma coisa. Quando João se preparava pra sair a mulher saia com aquela:

- Não vai não, fica comigo!
- Por que?
- Não quero ficar sozinha.

Parecia namoro. Tinha cara de romance de novela com muito beijo na boca. Mas que nada; nada pode ser tão perfeito assim num relacionamento a dois.

- Quer saber mesmo? Perguntava a mulher. Não tô te entendendo: toda vez que estou em casa você quer ir pra rua e quando estou na rua você quer me trancar em casa!
- Você deve ser maluca...
- Maluca é a sua mãe. Eu te conheço não é de hoje!

Discussãozinha besta mesmo, tipo das de casal moderno.

- Não sei onde quer chegar! Quando eu passava o dia inteiro com a bunda no sofá você me mandava procurar o que fazer. Agora que achei você reclama. Deve ser doida, só pode ser doida!!!

João e Maria estavam casados há vinte anos. Conheciam o outro mais que a si mesmos, mas nunca se entendiam. Um típico casamento contemporâneo onde os estranhos decidem juntar os panos e morar juntos. Convenção dos tempos modernos que nada tem a ver com casamento.

- Te conheço na palma da mão, dizia a esposa. Não sei o que tem na rua, mas só pode ser mulher...
- Você é louca. Faz um ano que estou desempregado. Não tenho um tostão... Estou cheio de dívidas... Como pode achar que tenho amante? Mulher gosta de dinheiro; de homem que paga as contas!
- Ah, meu filho, pra sacanagem sempre se dá um jeito. Homem é bicho safado, num presta! Te conheço na palma da mão. Trabalho é que não é. Faz dias que você não coloca um centavo em casa!

João era um nordestino daqueles que nunca gostou de dengo. Pra ele mulher servia pra cuidar da casa, dos filhos e pra lhe servir à noite na alcova. Um tipo machista que não aceita ajuda nem mesmo quando está na pior;  pelo menos é o que deixa parecer. Se não tinha trabalho fixo fazia bico. Se não tinha bico, ficava em casa esperando um chamado a qualquer momento. Estava sempre pronto a servir o primeiro patrão e nunca aceitou que sua mulher tralhasse fora. Era o homem da casa e sempre dava a última palavra.

- Por acaso algum dia saí com você e te deixei pagar a conta? Já mandei você trabalhar pra botar o que comer em casa?

A resposta vinha como foguete. Estava na ponta da língua.

- Deixar eu pagar as contas você nunca deixou, mas eu pago mesmo assim. Ou você acha que a energia está ligada e a água na torneira por obra do divino espírito santo? Por que será que eu passo o dia inteiro com a barriga naquele tanque, heim? Nunca achou estranho que o varal esteja sempre lotado? Desconfia sujeito!

- O quê? Você está lavando roupa pra fora e num me falou nada? Virou empregadinha sem eu saber? Tá doida? Que que vão falar de mim... Pior, o que já devem estar falando? Devo ter virado chacota e nem sei.

Por lá, a roupa suja era lavada no verbo também.

- Não sei porque tá nervosinho, quando te conheci você estava desempregado como agora, esqueceu? Meu tio tinha te colocado no olho da rua depois de descobrir que você tinha emprenhado a filha dele e num quis casar com ela. Mesmo assim eu caí na besteira de ficar contigo.
- Você é louca. Eu que larguei aquela uma porque não servia pra mim. Já tinha se deitado com todo mundo e o véio achava que a barriga dela era culpa minha. Ali não tinha nenhuma santa e você sabe disso; por isso ficou comigo!
- Isso num importa. Naquela época você não tinha dinheiro, tinha fama de mulherengo e mesmo assim eu caí na sua lábia, cachorro. Você era um duro como é agora. Dinheiro não é tudo não, meu filho.
- Mas agora é diferente. Eu sou um homem sério, trabalhador, pai de filhos, casado. Me respeita.
- E daí, deixou de ser homem? Passou a prestar?

terça-feira, 19 de julho de 2016

Rio Maravilha

Naquele domingo tudo parecia perfeito. No Rio, os termômetros marcavam 35 graus. O céu estava azul e uma leve brisa soprava nos rostos cariocas mais dispostos. Era certo, daria praia. Como de costume corri ao supermercado, comprei uns biscoitos, água de coco - que no playground carioca anda pela hora da morte, e, é claro, algumas cervejinhas. Afinal de contas, Ipanema sem a loira gelada é como namoro sem beijo na boca.

Tudo parecia perfeito não fosse aquele brutamontes com seu PitBull se achando o dono do pedaço. Mal coloquei os pés a areia e a primeira surpresa: uma bomba deixada pelo monstro de quatro patas. Não sabia quem era mais desatento: o quadrúpede ou o animal que o cria.

O Arpoador de areias claras e ondas maliciosas já não era mais o mesmo; nem de longe lembrava o paraíso da minha infância! Naquela época, sempre que chegava à orla era recebido com a música do vendedor de Mate "olha o mate, Mate Leão", os gritos do homem do picolé "olha ae o picolé... ô gelado!" e pelos insistentes chamados do Carlinhos do Queijo Coalho tentando convencer meu pai a matar a fome e os desejos da garotada "ô seu Cezar, os menino tá com água na boca!". A criançada se divertia jogando bola e construindo seus castelinhos de areia. Já os marmanjos... Esses passavam o tempo praticando uma especialidade carioca: analisar a mulherada!

Hoje está tudo diferente. O cheiro do camarão na brasa deu lugar ao da urina dos bêbados apressados e dos cães desavisados que usam a praia como sanitário. A criançada não arreda os pés de perto dos pais isoladas em seus mundinhos virtuais. A conversa tranquila deu lugar à preocupação com os arrastões agora tão comuns. Nem parece que estamos naquela cidade que um dia pôde se orgulhar de ser chamada de maravilhosa!

Se meu pai estivesse vivo certamente iria reclamar. Ele que sempre gostou de correr com os pés molhados hoje teria de tomar cuidado pra não cortá-los nas garrafas esquecidas na areia. Ambientalista engajado certamente denunciaria a prefeitura por tamanho descaso: ora, onde já se viu manchar um cartão postal com restos de comida, lixo e falta de vontade política? Ainda bem que o velho Cezar descansou: ele não aguentaria ver seu Rio assim.

Nos dias de hoje vale mais à pena ficar em casa. Rio Maravilha só nas canções do Jobim ou nas telas da TV.

sábado, 16 de julho de 2016

Os jovens e a tal 'ostentação'

- O comédia tá doido pra perder o celular.
- Quer aparecer!
- Já já vem um doído e acaba com a onda dele.

Ouvi essa conversa quando chegava à escola pra buscar meu filho. Partia de dois meninos criticando a atitude de um colega que simplesmente falava ao celular na calçada à vista de qualquer um. Ele usava um desses aparelhos modernos que parecem pé de fruta e já vem com uma maçã! Não parecia ter qualquer pretensão de usurpar olhares, mas já havia virado motivo de chacota. Talvez porque o sonho de consumo de seus críticos seja possuir um brinquedinho igual, que além facilitar a comunicação funciona praticamente como minicomputador.

A situação anda tão feia no Rio de Janeiro que ninguém mais pode usar seus objetos sem medo, pensei; achando que era essa também a preocupação dos meninos. Mas, logo percebi que estava errado quando cheguei mais perto e pude ouvir o fundo musical de toda aquela crítica. Em seus aparelhos menos vistosos, mas também potentes, os manos se deliciavam ao som dos “novos pensadores brasileiros.”

Olhei pro espelho e preparei um plano
Cordão de ouro pesado
Rolex tenho sobrando
No meu guarda-roupa uma coleção de kit's
Só estampa de marca parece uma loja de griff
Entrei na minha garagem puro conforto das naves
Bmw-X6 e uma linda maserati
Mais que bela visãodo Ap do Guarujá
A vida agora é Vip com a lancha de 3 andar

Meu Deus, que porcaria, sussurrei tentando entender o que se passa na cabeça dos jovens de hoje. E enquanto esperava meu filho dar as caras consegui prestar atenção ao refrão de outra maravilha que, ainda por cima, tinha a pretensão de soar como poesia:

Sonhar, nunca desistir
Ter fé, pois fácil não é, nem vai ser
Tentar até se esgotar suas forças
Se hoje eu tenho eu quero dividir
Ostentar pra esperança levar e o mundo sorrir

Caramba, devo estar velho. Na minha época “levar esperança” não tinha nada a ver com ostentação. Acompanhar a trajetória de um menino pobre que consegue superar as adversidades e se formar na universidade, muitas vezes como o primeiro graduado de sua família, isso sim nos fazia acreditar em dias melhores.

O fato é que as coisas mudaram. Os jovens mudaram. As famílias mudaram e os valores foram deixados de lado. Minha avó, professora por mais de trinta anos, costumava dizer que a tarefa da escola é alfabetizar a criança e estimular o jovem através de atividades pedagógicas e do raciocínio lógico a adquirir conhecimento pra que quando adulto esteja preparado pra decidir o que fazer da vida. Mas, mais importante que isso, cabe à família educar seus filhos através de exemplos e da vigilância.

Uma criança criada numa casa onde há diálogo e estímulo à leitura... onde se ouve boa música, se vê bons filmes e programas de qualidade... onde se discute política, comportamento e relacionamento social... onde se fala de tudo, absolutamente tudo, e se põe regras e limites terá maiores chances de se tornar um jovem crítico e de bom convício social. Certamente este indivíduo não fará da ostentação uma filosofia como querem os MCs por eles idolatrados hoje.

É preciso trazer discussões como sexo, drogas, dinheiro, desemprego, violência, educação, respeito ao próximo, amor próprio, religião, importância dos estudos e do trabalho pra roda de conversa com os filhos. Conceitos de segurança púbica e responsabilidade social. Estamos forjando cidadãos e não esculpindo estátuas.

Lares desajustados onde não há qualquer tipo regra e o crescimento das crianças corre a gosto do freguês inibem o senso crítico e permitem amizades perigosas e escolhas equivocadas. Infelizmente, muitas famílias estão deixando pras escolas e pro mundo à educação de seus filhos. E nesta inversão de papéis produzindo meninos e meninas mais atentos à ostentação que preocupados com a sociedade em que vivem.

Em outros tempos, penso que ao invés de criticarem o colega que ostentava um celular caro no meio da rua aqueles meninos, da escola do meu filho, teriam aconselhado o rapaz a usar seu telefone apenas em ambientes seguros, como o pátio do colégio para autoproteção. Mas, como estou ficando velho, talvez esteja enganado. Será?

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Namoro

A aula se encaminhava pro final quando, sorrateiramente, pintou um desafio: escrever um texto a quatro mãos. Ora, a duas já não era tarefa fácil imagine agora tendo que pensar junto com outro, dividir sentimentos, ideias, respirar e sentir pra acertar as linhas. Trabalho pra ninguém botar defeito!

Parecia início de namoro. Sabe quando você sabe que precisa sair da inércia e dar o primeiro passo mas fica esperando pelo outro? Era mais ou menos assim. Os olhares se encontravam na dúvida, os lábios se espremiam no medo de dar um palpite errado e as mãos, ah as mãos, queriam avançar, mas estavam presas na incerteza.

De repente as cadeiras se aproximaram, os olhares expulsaram o medo e as bocas se abriram pra primeira ideia.

- Já que está difícil começar o texto, vamos falar desta dificuldade.
- Ah, não, isso seria óbvio demais!
- Mas como assim, nem me conhece e já está dizendo que sou previsível?

Mulheres, ah, mulheres, complicadas, mas perfeitinhas. Sem perceber ela acabara de ditar o tema da crônica: relacionamento. Nada melhor pra expressar ‘dificuldades’ que os relacionamentos humanos. São como estórias perfeitas: têm início, meio e fim; e assim são os textos. Como no namoro, primeiro a gente decide sobre o que falar. Depois se põe à disposição, dá um chute na timidez e cospe de uma ou outra forma o que está preso no peito.

Estava posto então o primeiro ensinamento da oficina e certamente o objetivo daquela proposta indecente de texto a quatro mãos: escrever é transpirar, organizar as ideias... se debruçar sobre o novo pra dominar o desconhecido. Nada diferente do primeiro dia de namoro.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Coisa de Brasileiro?

Você certamente já deve ter ouvido falar ou conhece alguém do tipo insatisfeito: aquele sujeito que reclama de tudo e é sempre do contra. Pra ele nada está bom! Se tá calor o cara quer frio. Se você traz um doce ele diz que está de dieta, mas não deixa de lado o cafezinho melado! Se a turma combina pra ir ao cinema ele diz que vai fazer uma pipoquinha e assistir um filminho em casa mesmo, embora todo dia reclame das repetições tão comuns na televisão.

O pior de tudo é que além de rabugento o sujeito é descansado. Reclama da política, mas a cada eleição repete o voto. Fala mal do pãozinho da esquina, mas tem preguiça de andar até a outra padaria onde o francês sai quentinho de hora em hora. Não gosta do emprego e da empresa em que trabalha, mas na maioria dos casos pede aposentadoria ao patrão que assinou sua carteira há mais de trinta anos. Reclama dos juros, mas não sai de casa sem o maldito cartão de crédito.

Dizem que está no DNA de quem nasce nesta terra esperar pelo outro e pôr a culpa em alguém. Pedro Paulo reclama todo santo dia da conta de luz. Diz que o governo é pilantra, corrupto e que sobretaxa a energia há pelo menos 16 anos. Mas, dias desses, tive que o esperar por cerca de trinta minutos enquanto ele relaxava debaixo de um chuveiro elétrico pra se livrar do estresse! O cara é maluco, quase um psicopata. É também descarado. Veja você que quando saiu do banho, na maior nice, depois de gastar milhões, o malandro se revoltou com  o filho só porque o garoto tinha ligado um ventiladorzinho pra se refrescar dos quase 40 graus que torrava o Rio naquela sexta-feira de verão. Aos berros, ele exigia economia! Pode?

A mulher, dondoca frustrada, já que sempre colocou o chapéu além do alcance, todo mês gasta os tubos com gasolina para ir bater-perna no Centro da cidade, embora o metrô que passa na sua porta faça a mesma viagem em menor tempo e por preço muito inferior. Ela diz que andar de coletivo é coisa de pobre e que é de classe média; pelo menos acredita! Se vivesse na Europa certamente pensaria diferente: por lá as pessoas estão mais preocupadas com a coletividade e a sustentabilidade financeira e ambiental.

No estrangeiro, comodismo e ostentação soam mal e cada uma faz a sua parte. Por aqui a tal da lei do Gerson ainda é moda. Gente que se diz bacana, séria e compromissada, e que até reclama da corrupção, não vê qualquer problema em fazer um gatinho na luz, desviar o sinal de TV a cabo, subornar alguém na fila, o guarda no trânsito ou o funcionário público pra liberação de um documento digamos rasurado! Isso é ou não é ser do contra? Ver todo isso e não falar ou fazer nada é ou não é comodismo?

Coisa de brasileiro?