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quarta-feira, 27 de julho de 2016

E a tal da inspiração, de onde vem?

Era terça-feira, mas não uma terça qualquer. Aquela era especial. Afinal de contas, era dia de contar estórias. Naquela sala coral estavam reunidos os melhores aprendizes das letras. Tinha gente de Campos, de Nova Iguaçu e até da Bahia. Atentos, os novos escritores tentavam entender nas entrelinhas de Armando Nogueira como fazer de um texto uma crônica esportiva.

Nas prosas do craque tudo chamava a atenção: a bola, o gramado, os uniformes e a conversa alta dos meninos em um campinho da Baixada Fluminense. Cada palavra, atitude ou gesto usados por Armando precisavam ser atentamente observados pelos alunos da professora Edda, já que os elementos eram tijolinhos daquela construção literária. Estava tudo perfeito. Sentia-me como se ainda estivesse na sala da tia Marilda que durante o primário me convidava a navegar no mar da literatura brasileira. De repente, um barulho:

- Que que é pra fazer, Joana? Perguntava um certo funcionário da instituição que nos presentava com aquela oficina de prosa.

Teve gente que não se abalou e continuou vidrado nas crônicas do Armando. Mas eu, jornalista, sempre prezei pelo silêncio na hora de escrever e fiquei irritado. Como podia alguém interromper uma aula de forma truculenta e descabida? Ora bolas, um desrespeito sem tamanho! Aquele sujeito tinha atrapalhado nossa terça-feira especial simplesmente para retirar da sala uma lousa que seria usada num outro dia, por uma outra turma qualquer; não pela nosso seleto grupo de aprendizes!

De repente me veio à cabeça as aulas no Colégio Leopoldo. Lembro-me como se fosse hoje: ai de quem interrompesse a professora Marilda por um motivo tão banal. Seria logo taxado de mal-educado e convidado a se retirar. Ainda mais se o tema fosse crônicas esportivas de Fernando Calazans, Armando Nogueira ou Nelson Rodrigues. Todos craques da literatura contemporânea.

Passado o susto, voltei aos estudos e reli: a crônica é um texto em primeira ou terceira pessoa, escrito em prosa. Narrativo e descritivo, às vezes cronológico e quase sempre de teor contemporâneo. Muitas vezes usa da metalinguagem e sempre que possível abusa de outras figuras de linguagem. No bojo, são textos atuais.

Dei-me conta que a entrada triunfal daquele servidor do SESC não havia sido de todo ruim; na verdade não fora. Ao contrário, foi um grande presente do acaso. Relatar toda aquela situação era a inspiração que me faltava para escrever esta minha primeira crônica.

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Quem sabe faz a hora

- Ah, eu até queria a vaga, mas moro longe...
- Onde?
- Uns cinco quilômetros daí.
- Só isso? Rapaz dá pra vir a pé!
- É... Mas eu teria que sair de casa bem mais cedo...

Assim terminavam as explicações daquele que durante uma semana tinha tomado o tempo de um contratante em busca de vaga. O candidato tinha feito de tudo pra conseguir uma entrevista, mas na hora H... Numa das conversas, chegou a pedir “por favor”, sob a alegação de que era arrimo de família.

-Seu Victor, me deixe fazer o teste. Preciso trabalhar, sou eu quem sustento minha mãe e ajudo a criar dois irmãos. Estou desempregado há quase um ano, vivendo de bicos. Deixa eu tentar, por favor?

Não dá mesmo pra entender. Todos os dias os noticiários contavam da crise econômica e dos milhões de brasileiros desempregados. Gente diplomada tentando vagas em outras áreas, abaixo de suas qualificações, e aquele cidadão se dando ao desfrute.

Era 2016. O setor das comunicações estava “numa crise daquelas” e, ainda assim, uma emissora paulistana tentava a todo custo contratar jornalistas. Tinha colocado anúncios em jornais, carros de som e nas redes sociais. Um deles dizia: “Vaga para jornalista, mesmo sem experiência. Salário de R$ 2.800 + benefícios. Jornada de 30h semanais”. Mesmo assim, não aparecia ninguém. Intrigado, o diretor de jornalismo se perguntava o que estava acontecendo. Naquela ocasião a oportunidade era “uma bocada”!

Por muitas vezes, Victor se pegava pensando em sua própria história. Aos dezoito anos, ele saía de casa às 4h30 da matina e só retornava por volta da meia-noite. Servia à Marinha do Brasil e cursava jornalismo numa universidade distante do local de trabalho e de sua casa. Passava mais tempo no trânsito e nos seus afazeres que com a família. Não tinha tempo nem pra namorar! Um dia, perguntado pelo patrão do porquê da vaga ainda está em aberto, respondeu:

- Sabe doutor, quando era jovem, acordava muito cedo. Engolia o café da manhã e partia pro ponto de ônibus pra não perder a condução e correr o risco de ficar preso no quartel: o horário era rígido! Morava em Nova Iguaçu, servia na Ilha do Governador e estudava em São Gonçalo, no Rio de Janeiro.

Atento, Rosevaldo Chagas ouvia aquele testemunho.

- De casa ao quartel eram 35 quilômetros. De lá pra faculdade outros 38 e de volta pra casa 57,6 contatos! Percorria todos os dias 261 quilômetros entre idas e vidas, trocando de coletivos, pra tentar ganhar a vida e sem reclamar.

-Nossa!
- Não foi fácil chegar até aqui. Ai me vem um cidadão suplicando emprego com toda aquela conversa triste e no dia da entrevista liga dizendo que não tem mais interesse na vaga porque a empresa é longe demais... Ora bolas, de bicicleta ele levaria cerca de dez minutos de casa até aqui. A pé no máximo 40, andando a passos de tartaruga!

No fim da conversa, Chagas não sabia o que dizer, mas começou a olhar diferente para aquele funcionário. Estava diante de um profissional que depois de ter passado por toda esta dificuldade ainda estava a mais de 700 quilômetros de sua família pra fazer valer seu diploma e ajudar a levantar o jornalismo da empresa.

Quando voltou pra casa não perdeu tempo. Antes que o filho abrisse a boca pra reclamar mais uma vez de ter que acordar cedo pra estudar foi enfático.

- Júnior, meu filho, agora que já jantou escove os dentes e cama!
- Mas, pai... Não quero ir pra escola amanhã, tô cansado!
- Se você quiser ser alguém, meu filho, vai ter que aprender a se esforçar. A vida é feita de dificuldades, meu caro, e pra tudo tem um preço. Trata de ir pra cama e agradecer por ter uma família que te dá casa, comida, educação e escola sem que você precise mover uma palha pra tudo isso. Eu não estarei aqui pra sempre, Junior.
- Mas pai...
- Vai pra cama, meu filho. Estude e aproveite todas oportunidades da vida. Amanhã, quando for adulto, pai de família, um homem de verdade, vai me agradecer e poderá ser um exemplo para seus filhos.


No dia seguinte, o empresário voltou ao labuta certo de que logo a vaga seria preenchida, já que havia escolhido um gestor que sabia o valor que o trabalho tem para um homem.

sábado, 9 de julho de 2016

Construíndo Campanhas

A proposta oficial do marketing designa a esta poderosa ferramenta administrativa a obrigatoriedade da criação de necessidades dentro de um determinado mercado. Cabe então, a descoberta dos valores, produtos ou serviços que as pessoas desejam ou vão passar a desejar a partir da influência oportunizada pela mensagem publicitária.

Costumo dizer que se observada de forma pragmática a palavra Marketing assume sua tradução literal: mercado. Pode-se, então, afirmar que Marketing é o estudo do mercado. É uma ferramenta administrativa que possibilita a observação de tendências e a criação de novas oportunidades de consumo visando à satisfação do cliente e respondendo aos objetivos financeiros e mercadológicos das empresas de produção ou prestação de serviços.

Para Philip Kotler, marketing é “a atividade humana dirigida à satisfação das necessidades e desejos através de um processo de troca”.  Por tanto, aplicar esta teoria em campanhas políticas pode tornar o jogo mais interessante, apimentado e sagaz. Fazer o eleitor perceber que numa proposta partidária mais vale as novas idéias que às críticas ao trabalho antecessor pode ser uma agradável tarefa para marqueteiros que vislumbram um lugar ao sol nas próximas eleições.

Toda campanha política necessita de uma gama de criadores atentos a cada passo, palavra, gesto, ação! É preciso estar alerta: quase sempre em época eleitoral o político é muito cortejado e isso pode ser o primeiro passo pra derrocada. Paparicos demasiados vindos de assessores e pares partidários massageiam o ego e cegam o competidor. Opor-se ao cliente é uma necessidade profissional porque o objetivo é a vitória nas urnas e não o título de “belo”. Porém, grande parte dos candidatos não consegue abrir os olhos. Tampouco conhece, de fato, o produto que estão oferecendo, a ideia transmitida em seus discursos ou a resposta dos eleitores às suas propostas.

Em marketing político, a comunicação é como uma droga: em doses adequadas é medicamento, mas se mal utilizada um veneno fatal. Tomar a palavra a todo o momento banaliza a imagem do político. É preciso saber a hora certa de falar e sempre o que dizer. Antecipar-se ao entendimento do eleitor é a saída. O discurso correto traz nas entrelinhas tudo àquilo que o votante quer e precisa ouvir. O segredo da boa comunicação está nos detalhes e na moderação da oratória: a época das acusações e apelações politiqueiras ficou para trás.

Modernas campanhas eleitorais são multidisciplinares e envolvem profissionais de diversas áreas das ciências sociais e humanas aplicadas: antropologia, sociologia, política, economia, administração e comunicação social. Não existe mais espaço para improvisos baseados em intuição ou acordos políticos. A era do candidato centralizador virou história.

O mercado eleitoral competitivo é composto por dois agentes básicos: candidato e eleitores. O candidato deseja do eleitor informação e voto: informação para criar programas de atuação política e o voto para chegar ao poder e desenvolver o seu programa. Por outro lado, o eleitor deseja do candidato uma boa comunicação e o cumprimento das propostas e dos favores.

O candidato é o elo entre as causas públicas e o eleitor. É a primeira vitrine dos partidos, das ideologias, das estratégias de marketing e de seus ideais. O candidato é o conteúdo, é um contexto amplo entre partido, ideologia, vida e sua participação na vida social. Os fatores que compõem um candidato são:
    • Potencial próprio: sua capacidade de liderança, suas habilidades, sua comunicação, sua habilidade de discurso e seu carisma. 
    • Fatores Internos de pressão: Grupo político (partido ou facção) e grupo de financiamento.
    • Fatores Externos de pressão: Eleitores e adversários.
O eleitor é uma incógnita a cada eleição. Por isso mesmo, um dos problemas mais clássicos da ciência política é estudar e determinar o padrão de comportamento dos eleitores. Como ele pensa e decide o seu voto? Existe algum motivo para a escolha do seu candidato, quais aspectos que padronizam essa escolha? No Brasil, através de alguns estudos realizados sobre o comportamento do eleitor, chegou-se a um consenso de que existem três leis fundamentais de posicionamento do eleitor, são elas:
    • Lei da Indiferença: Onde o eleitor, quando entra na cabine eleitoral põe fim a um difícil processo de tomada de decisão. Nessa hora ele se lembra de Pelé, de Sílvio Santos, do macaco Tião e de outras personalidades de forte presença em sua mente, menos nos candidatos, porque para ele, é tudo igual, é indiferente votar nesse ou naquele candidato.
    • Lei da Procrastinação: Representa o máximo adiamento. Sempre que pode, o eleitor adia sua decisão de voto para o período mais próximo da eleição. Cerca de 90% das pessoas ao dirigir-se a cabine eleitoral, já tem o seu candidato consolidado, mas 10% ainda entram para votar, com muita dúvida, são os procrastinadores e, esses podem decidir uma campanha mais acirrada.Lei da efemeridade: As idéias e aspirações da sociedade obedecem a um ciclo de vida determinado (corrupção, ecologia, violência, etc.).
    • Lei da efemeridade trata dos ciclos das idéias e aspirações, onde elas nascem, crescem, se desenvolvem, desgastam-se e desaparecem. Um candidato começar a defender uma causa ou uma idéia, ecologia, por exemplo, num momento em que o mundo inteiro não fala mais no assunto, é aderir a uma moda que aos olhos do eleitor já está ultrapassada, porque o mundo está preocupado neste momento é com o combate à violência.
Construindo uma campanha

Toda campanha visa conquistar o voto que é influenciado por três componentes distintos: ideológico, político e eleitoral.
    • Político - firmado de forma direta, numa relação pessoal entre candidato e eleitor. Em cidades pequenas esse fator é grande e chega a 80% da motivação dos votos.
    • Ideológico - influencia apenas uma pequena parcela dos eleitores. O discurso de esquerda, de direita, do socialismo ou liberalismo afeta pouco mais de 5% do eleitorado, atingindo o máximo de 10% no mercado nacional. 
    • Eleitoral - representa o esforço concentrado de conquista do eleitor, é o campo de atuação do marketing político. Sua influência cresce com o tamanho do universo eleitoral. Chega a atingir até 70% das decisões de voto.
Comunicação Estratégica

Cada dia que passa às pessoas são bombardeadas por milhões de informações e estímulos. É claro que elas não conseguem processar e reter todas as informações, o que acontece é que a mente simplifica o que é recebido, aceitando apenas aquilo que interessa. A arte de se fazer ouvir, de se comunicar e persuadir está na identificação do caminho mais rápido para a mente. A pirâmide de Maslow, por exemplo, fornece pistas para descobrirmos o melhor caminho. Segundo ele as reações das pessoas aos estímulos são determinadas basicamente pelas necessidades básicas (fisiológicas) até as mais elevadas (auto-realização).

A mídia eletrônica hoje é considerada de o “segundo deus” por sua onipresença e seu poder de influência sobre as pessoas. Cada veículo tem uma linguagem muito específica, mas quando se trata de televisão, a linguagem se aproxima bastante do cotidiano das pessoas, de forma simples e direta. O candidato deve estar ciente de que está invadindo a sala de estar dos eleitores, é nessa hora o equilíbrio e a moderação, devem fazer parte de seu comportamento, pois é como se ele estivesse conversando com o eleitor em sua casa. Por tanto, fique atento e saiba como agir:
    • O marketing político está relacionado com a formação da imagem a longo prazo. É utilizado por pessoas e políticos que desejam projetar-se publicamente.
    • Já o marketing eleitoral é de curto prazo. As estratégias e as táticas de comunicação são montadas em cima de um ambiente vivo, já existente, em andamento e não de um ambiente criado.

Princípios Estratégicos

    • Mantenha sempre um trunfo contra seus inimigos e saiba quando deve ser acionado;
    • Conheça o que pensa o eleitor, antes de partir para a sua conquista;
    • A melhor forma de conquistar a mente a mente do eleitor  é ser primeiro a chegar;
    • Não basta ter o perfil desejado pela população, é preciso associar sua imagem a ele antes dos adversários;
    • Trabalhe na linha de menor resistência ao posicionamento na mente do eleitor;
    • Procure maximizar os pontos favoráveis e minimizar as falhas, se possível convertendo-se em virtudes;
    • Procure antecipar o ciclo de idéias e aspirações que predominará no momento da eleição;
    • O eleitor sempre associará o candidato a continuidade ou mudança. Compatibilize sua imagem com a tendência predominante, respeitando os limites impostos por sua personalidade;
    • Concentre seu discurso na valorização e unidade do partido;
    • Convenção é sinal de força. Se for conveniente, antecipe a convenção;
    • Concentre forças no seu principal inimigo, não desperdice munição atirando para todos os lados;
    • Procure sempre antecipar-se aos movimentos de adversários que possam ameaçar sua posição antes que seja preciso reagir;
    • Confirme os defeitos do inimigo junto ao eleitorado. Ataque nesse ponto.
    • Procure demonstrar incoerência entre o discurso do candidato e seu passado;
    • Utilize a força de liderança para eliminar as possibilidades de reação do inimigo;
    • Redirecione forças para os segmentos que apresentam maior potencial de votos;
    • Se a polarização é inevitável, procure levar seu adversário para o campo que lhe seja mais favorável;
    • O político eficiente tem na “comunicação” seu amuleto de sorte. Um problema resolvido pode pôr tido a perder. Se o político se omite, não comunica, em determinadas ocasiões, ele deixa espaço para o crescimento da oposição e, conseqüentemente, para versões distorcidas de seus opositores.
Fique atento às pesquisas de opinião

Para Maquiavel “a realidade é como é, não como gostaríamos que ela fosse”. Portanto, fica clara a importância da pesquisa na vida do candidato e mais ainda na vida do eleitor. Os fatores de maior relevância a serem apurados são: a imagem do candidato, sua trajetória política, seu carisma e empatia com o eleitor, seu programa de governo, sua principal meta de governo, a sua profissão, seu partido político, seus apoiadores e o grupo social em que está inserido ou se identifica.

Na eleição, como na guerra, grande parte das batalhas é decidida em tempos de paz. A preparação da campanha inicia-se com a avaliação do eleitorado, do potencial próprio do candidato e de seus prováveis inimigos. Devemos, então, tomar como ferramentas três tipos de pesquisas aplicáveis ao marketing político objetivando avaliar o eleitorado:

  • Pesquisas de opinião pública procuram mensurar  o conhecimento da população sobre determinados assuntos como ecologia, privatização, AIDS, economia, política, área social e etc.
  • Pesquisas de acompanhamento e desempenho administrativo levantam os principais problemas da população, avaliam o desempenho dos governantes, aferem a imagem administrativa, o grau de conhecimento dos projetos e das obras realizadas e o grau de satisfação com os serviços públicos.
  • Pesquisas eleitorais, por sua vez, procuram detectar as intenções de voto do eleitor a cada momento, aferindo o potencial de adesão ou rejeição a cada candidato.


REFERÊNCIAS: VOTO É MARKETING, O RESTO É POLÍTICA. SEQÜELA, Jacques. Edições Loyola

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Coisa de Brasileiro?

Você certamente já deve ter ouvido falar ou conhece alguém do tipo insatisfeito: aquele sujeito que reclama de tudo e é sempre do contra. Pra ele nada está bom! Se tá calor o cara quer frio. Se você traz um doce ele diz que está de dieta, mas não deixa de lado o cafezinho melado! Se a turma combina pra ir ao cinema ele diz que vai fazer uma pipoquinha e assistir um filminho em casa mesmo, embora todo dia reclame das repetições tão comuns na televisão.

O pior de tudo é que além de rabugento o sujeito é descansado. Reclama da política, mas a cada eleição repete o voto. Fala mal do pãozinho da esquina, mas tem preguiça de andar até a outra padaria onde o francês sai quentinho de hora em hora. Não gosta do emprego e da empresa em que trabalha, mas na maioria dos casos pede aposentadoria ao patrão que assinou sua carteira há mais de trinta anos. Reclama dos juros, mas não sai de casa sem o maldito cartão de crédito.

Dizem que está no DNA de quem nasce nesta terra esperar pelo outro e pôr a culpa em alguém. Pedro Paulo reclama todo santo dia da conta de luz. Diz que o governo é pilantra, corrupto e que sobretaxa a energia há pelo menos 16 anos. Mas, dias desses, tive que o esperar por cerca de trinta minutos enquanto ele relaxava debaixo de um chuveiro elétrico pra se livrar do estresse! O cara é maluco, quase um psicopata. É também descarado. Veja você que quando saiu do banho, na maior nice, depois de gastar milhões, o malandro se revoltou com  o filho só porque o garoto tinha ligado um ventiladorzinho pra se refrescar dos quase 40 graus que torrava o Rio naquela sexta-feira de verão. Aos berros, ele exigia economia! Pode?

A mulher, dondoca frustrada, já que sempre colocou o chapéu além do alcance, todo mês gasta os tubos com gasolina para ir bater-perna no Centro da cidade, embora o metrô que passa na sua porta faça a mesma viagem em menor tempo e por preço muito inferior. Ela diz que andar de coletivo é coisa de pobre e que é de classe média; pelo menos acredita! Se vivesse na Europa certamente pensaria diferente: por lá as pessoas estão mais preocupadas com a coletividade e a sustentabilidade financeira e ambiental.

No estrangeiro, comodismo e ostentação soam mal e cada uma faz a sua parte. Por aqui a tal da lei do Gerson ainda é moda. Gente que se diz bacana, séria e compromissada, e que até reclama da corrupção, não vê qualquer problema em fazer um gatinho na luz, desviar o sinal de TV a cabo, subornar alguém na fila, o guarda no trânsito ou o funcionário público pra liberação de um documento digamos rasurado! Isso é ou não é ser do contra? Ver todo isso e não falar ou fazer nada é ou não é comodismo?

Coisa de brasileiro?                          

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Vil Metal


Todo dia era assim. Antes que o sol batesse à janela, Carlos Alberto estava de pé. Às 5h30, já tinha tomado banho, escovado os dentes e afiado a língua; afinal de contas sua jornada começava cedo e cada minuto precisava ser produtivo. Como de costume, o empresário, dono de um grande jornal, acordava a casa com seus berros.

Ora queria saber onde estava a roupa do dia, embora estivesse sempre ali: passada e pronta para o uso na porta do meio de seu guarda-roupas: um móvel rústico talhado em madeira de lei. Noutro momento cobrava da mulher as chaves do carro que, como de costume, a cada dia amanheciam em lugar diferente por causa da sua desorganização.

Ninguém entendia o porquê de tanto estresse. Nem havia completado cinquenta anos e já vivia uma realidade bem diferente da maioria dos colegas de infância. Nascido em uma comunidade pobre da baixada fluminense, no Rio de Janeiro, o empresário de alta estatura, cabelos grisalhos e porte atlético, circulava pela cidade num carrão de luxo importado. Usava roupas de grife e mantinha na gaveta perfumes caros; daqueles que só homens de negócio costumam usar.

Sua cobertura, um duplex de frente pro mar da zona oeste, chamava a atenção de quem passeava pela orla; nem de longe lembrava a casinha sem reboco onde ele e o irmão Antônio cresceram.
A Gazeta Fluminense, que comandava com pulso forte, estava entre as mais bem-sucedidas empresas de comunicação do Estado e vivia dias bem diferentes daqueles quando Carlos Alberto, ainda recém-formado no ensino médio foi transformado em executivo de vendas do jornal.

A infância

Carlos Alberto Dantas nasceu no dia 21 de junho de 1970, em Nova Iguaçu, no Rio, duas horas depois do Brasil vencer a Itália por 4 x 1 e conquistar sua terceira copa do Mundo, no México.  Mesmo dia em que os pais completavam três anos de casados. Seu nome foi uma homenagem ao eterno capitão Carlos Alberto Torres.

Filho de Francisco Dantas, um lavrador criado no cabo da enxada no sertão de Pernambuco, e de Joana, diarista, o menino sempre soube que só com trabalho um homem pode ganhar a vida. O pai acordava cedo todos os dias. Às quatro da manhã, estava de pé preparando o cafezinho que vendia no trem a caminho do trabalho. Era jardineiro na casa dos Lacerda desde 1960, quando chegou no Rio de Janeiro fugindo da seca do nordeste. Nem nos dias de folga o homem descansava: quando não estava na capina podia ser visto lavando carros ou vendendo picolés pela rua. Uma rotina quebrada no dia treze de maio de 1983.

Carlos e o pai estavam em casa quando o telefone tocou. Era Juvenal Lacerda, o patrão, que sem meias palavras foi logo informando da morte de Antônio.

- Francisco, aqui é o Juvenal.
- Boa tarde doutor. Olha, eu num fui trabalhar porque...

           O Caxias que pela primeira vez havia faltado o trabalho foi logo interrompido:

- Escuta, homem, sobre isso a gente fala depois. O negócio é o seguinte: Toninho morreu.
- O quê?, perguntou Francisco sem acreditar.
- Ele estava limpando o jardim e meteu a enxada no fio do refletor. Ai já viu, né? Tomou um choque de 220 volts e não resistiu.

Antes que o patrão terminasse a conversa, seu Francisco sentiu uma pontada no peito e caiu. Desesperado, o filho de apenas treze anos de idade só conseguia gritar: acorda papai, acorda! Foram os dez minutos mais longos de sua vida. O menino chorava, pedia socorro, mas ninguém ouvia. Dona Joana que voltava de mais uma faxina escutou os gritos ainda do portão. Assustada, entrou correndo e encontrou o filho em estado de choque. Voltou pra rua, pediu ajuda, mas era tarde demais: o marido estava morto. Num instante de lucidez decidiu ligar para o patrão dele e pedir socorro. Foi exatamente quando Juvenal chegou. Como tinha achado estranho o silêncio do empregado ao telefone decidiu vir e contar do ocorrido pessoalmente. Chegando foi surpreendido pelo destino: agora, além de informar o desencarne de Antônio precisava consolar a mãe e o caçula pelas duas perdas.

Na manhã seguinte, pai e filho foram enterrados.

O baque foi tão forte que mudou pra sempre a vida da família. Carlos Alberto que sempre foi um doce com a mãe se fechou. Passava a maior parte do dia na escola e em casa ficava trancando no quarto: não queria ver ninguém. Foram dias de silêncio até que conheceu Maria, a primeira namorada. Uma morena bonita, de cabelos longos e negros, que chamavam a atenção. Tinha 15 anos, morava no mesmo bairro e frequentava a mesma escola. Três anos de namoro até que decidiram deixar a casa dos pais, sem se pedir permissão, e fugiram pra viver juntos.

Conquistando a vida

O jovem que nunca tinha pegado no batente agora precisava arrumar trabalho. Com o diploma de técnico em administração chancelado pela Escola Municipal Monteiro Lobato, uma das mais respeitadas da baixada, foi até a Gazeta Fluminense falar com o velho Juvenal, ex-patrão do pai. Ele era o dono do jornal fundado na década de trinta e que já tivera em seus quadros jornalistas ilustres como Machado de Assis e Rui Barbosa.

O momento não era bom. A empresa estava atolada em dívidas, tinha reduzido em 50% o número de trabalhadores e remanejado os últimos dez funcionários para manter o jornal circulando. Mesmo assim, surgiu uma proposta desafiadora: ao invés de salário mensal o jovem trabalharia como executivo de vendas ganhando 20% sobre a venda dos jornais e nada além. O ano era 1998 e o diário mais tradicional de Nova Iguaçu precisava de um novo gás.

Naquela época, conseguir anunciantes era como encontrar uma agulha no palheiro. A internet ganhava força, atraia cada vez mais leitores e tirava dos impressos a verba publicitária. Jornais como o JB, um dos primeiros e mais respeitados, já migravam para versão on-line. Mas a Gazeta teimava em resistir.

Sem pestanejar o garoto aceitou a proposta. Tinha aprendido com o pai que só com trabalho se vence e que um homem não pode ter medo dos desafios que vida lhe impõe. Impôs apenas uma condição: a estratégia de vendas seria de sua total responsabilidade e ele não aceitaria interferências da chefia. Negócio fechado!

No dia seguinte, às sete da manhã, o novo executivo estava na Gazeta. Procurou o patrão e apresentou suas armas; estava disposto a adaptar promoções do comércio local pra vender propagandas. Faria assim: os antigos anunciantes que quisessem manter suas propagandas ganhariam de brinde um segundo anúncio, do mesmo tamanho do contratado, em outra página do jornal. Chamou a promoção de Dobradinha, do tipo pague um e leve dois.  Ora, se anúncio tem o objetivo atrair o maior número de consumidores, com mais exibições maiores as chances de convencê-los!

Para atrair novos clientes a estratégia seria diferente: consultoria especializada. Pra reduzir os custos do anunciante a própria equipe da Gazeta elaboraria sua propaganda e o ajudaria a escolher a melhor página para veiculação de acordo com o público alvo, evitando pra eles gastos com uma agência especializada. Além disso, o cliente ganharia uma publicação grátis a cada duas negociadas. Se contratasse quatro dias de publicação, por exemplo, teria sua mídia veiculada de segunda a sábado, seis vezes. Caso quisesse anunciar também no domingo ganharia desconto de 5% no preço total nos contratos de no mínimo três meses.

Mas pra tudo funcionar direitinho, a empresa precisava garantir que o jornal chegasse sem atraso às mãos do leitor, afinal de contas o impresso circulava nos 13 municípios da baixada fluminense, uma área enorme pra ser coberta. Pra evitar problemas, o novo executivo que tinha passado a noite estudando tudo sobre distribuição de jornais já tinha um plano.

Nos bairros com maior número de assinantes a entrega passaria a ser feita até às seis da manhã garantindo que o leitor recebesse o jornal antes de sair de casa e começasse o dia bem informado. Nas demais áreas, incluindo as regiões de comércio, os exemplares estariam nas bancas até às 7h. Assim, a caminho do trabalho qualquer pessoa poderia comprar a Gazeta Fluminense e ficar por dentro das novidades do dia.

A empresa faria um acordo com os donos das bancas para que seus exemplares fossem estrategicamente pendurados na parte externa das bancas deixando suas principais manchetes às vistas do público: capa boa atrai curiosos que compram o jornal. De ouvidos sempre atentos, o novo estrategista tinha escutado esta frase no dia anterior quando passava pela redação durante uma reunião de pauta. E cá pra nós, visibilidade, neste ramo, é alma do negócio!

Quando acabaram as explicações, o velho Juvenal se deu conta de que tinha acertado em cheio na contratação. O rapaz tinha jeito pra coisa; parecia até ter nascido em uma família de comerciantes e não de um jardineiro com uma doméstica. Seus filhos que estudaram nas melhores escolas e cresceram dentro da empresa nunca apresentaram uma estratégia pra garantir vivo o negócio que iriam herdar.

A grande virada

Foram dois anos de muito trabalho, mas no final tudo deu certo. As vendas triplicaram e a Gazeta Fluminense voltou a ser o maior jornal da baixada fluminense. Com a conta bancária em alta, no dia 7 de setembro de 2000, Carlos Alberto Dantas deu o grito de independência: chamou o patrão e o convenceu a pendurar as chuteiras aos 85 anos de idade. Por cerca de R$ 300 mil lhe comprou o diário e se tornou o mais novo magnata da comunicação.

Com o nome consolidado e de olho no mercado virtual a Gazeta ganhou sua versão on-line. Um site moderno, de visual arrojado, com notícias dinâmicas, correspondentes no exterior, fotografias em alta definição, blogs dos principais colunistas do Estado e uma WebTV. O sistema de buscas permitia acesso a todos os jornais desde a primeira edição impressa. Em pouco tempo, o GF.com passou a ser o portal de notícias mais visitado do Rio e, de quebra, o de melhor resultado financeiro. De pobre menino da Baixada, o agora Dr. Carlos Alberto era o mais respeitado empresário das comunicações no Rio de Janeiro.

Vida nova, hábitos novos e a arrogância peculiar àqueles que tudo têm às mãos. Com dinheiro no bolso vieram os bens materiais e a mudança de personalidade. O jovem que adorava os amigos, tinha ideais trabalhistas e queria um mundo mais justo e igualitário, agora só pensava no lucro. Entrava e saia da empresa sem dar bom dia: relacionamento amigável só com funcionários do alto escalão e grandes clientes.

Em casa, a rotina também mudou. O bate-papo com a mulher, o filminho em família, as brincadeiras com os filhos não aconteciam mais: o poderoso chefão não tinha tempo pra conversas fiadas. Toda vez que Junior pedia ao pai pra jogar com ele uma partida de vídeo game, por exemplo, a desculpa era sempre o cansaço. Afinal de contas, no dia seguinte o homem de negócios tinha que multiplicar a fortuna pra garantir o conforto de todos! Levantar cedo, acordar as crianças e tomar café com eles, quando tinha tempo, eram os carinhos que lhe bastavam. A paixão pela esposa havia se resumido a um beijo de despedida quando ela insistia.

O casamento se arrastou assim por cerca de cinco anos até que depois mais um round de xingamentos e agressões físicas, Maria decidiu ir embora. Juntou algumas roupas, documentos, pegou os filhos e saiu sem dizer uma só palavra. Carlos que estava na sala, agarrado à garrafa do seu escocês preferido, não viu a família sair. Bêbedo, ali mesmo dormiu.

No dia seguinte, quando mais uma vez queria saber onde estava sua camisa de linho branco, percebeu que algo estava diferente. Seus gritos não tinham resposta. Procurou por toda a casa e não encontrou a mulher. Foi ao quarto das crianças e os filhos não estavam lá. Ligou pro celular, mas a esposa não atendeu. Meia hora depois, vestiu as roupas que encontrou, passou seu melhor perfume, entrou no carro e foi trabalhar.

Os dias seguiram e a bela mansão da Avenida Lúcio Costa, construída para dar conforto à família, receber amigos e ostentar o sucesso do Dr. Carlos Alberto perdeu seu brilho. Apenas os empregados, que chegavam cedo e saiam antes do patrão voltar, frequentavam a casa.

No natal de 2015 uma ligação telefônica quebrou o silêncio: era um vizinho dos tempos em que Carlos ainda morava com mãe que ele não a via desde que deixou sua casa pra morar com a namorada. Sem meias palavras o homem foi logo falando que dona Joana havia morrido. Não deu detalhes, disse apenas que foi de infarto e que o corpo seria enterrado por volta das três da tarde no mesmo cemitério onde aos treze anos de idade ele tinha sepultado o pai e o irmão mais velho. A ligação caiu e o silêncio tomou conta da casa.

Quando deu por si, Carlos estava atônito, revirando caixas, gavetas, pastas de documentos tentando encontrar uma foto da mãe... Aos prantos gritava pela mulher que não estava ali: Maria, cadê as fotos de mamãe? Cadê as fotos Maria?.... Maria... Mariahhhhhhh.

De repente, encontrou uma fotografia do aniversário de dez anos do filho Junior, completados pouco antes da separação. O menino sorrindo em nada lembrava a criança triste pra quem o pai não tinha tempo. Cenas das brigas sem motivo, dos gritos, empurrões... da falta de paciência lhe tumultuavam a cabeça. Carlos estava sem chão, sentindo-se fraco, frágil, infeliz!


Tomou consciência de que não tinha mais ninguém. Estava sozinho, havia trocado os carinhos dos filhos, os afagos de Maria, o bate-papo em família pela ilusão de poder que o dinheiro traz. Foi preciso morrer a mãe pro filho acordar pra vida!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Carta aos Jornalistas


Foi-se o tempo em que os focas tinham vez nas redações de todo o país. A etapa do “me ensina que faço”, ficou para traz. O jornalista moderno precisa ser ousado, estar apto às mudanças imediatas que a profissão exige e ser, sobretudo, pró-ativo. Não há mais tempo para esperar a pauta, pensar o texto, aguardar o motorista, o fotógrafo ou cinegrafista e... É preciso tomar as rédeas da caravana e tocar os bois.

No jornalismo de hoje, onde tempo-real é necessidade na informação, tem que ter time, foco, perseverança, raciocínio lógico e perspicácia, sobretudo perspicácia. A internet está aí disposta, a todo tempo, em ser a produtora das redações. De forma menos burocrática, mais democrática e acessível que qualquer mortal. Nossos colegas, mesmo sem serem pagos para isso, nos pautam com suas matérias que nos servem de suíte para novos olhares.

Reescrever uma história não é plágio quando lembramos que a informação é plural, pública, de domínio de quem ler e, empiricamente, a absorve. Porque então o pudor burro e anti-profissional de achar que a informação tem dono? Que a mágoa submersa no orgulho te leva a outros caminhos ideológicos e tardios? Estamos vivendo o século XXI, a tecnologia da informação, a pluralidade dos fatos e a fome diária, e instantânea, de notícias.

Entrevistas são dadas todos os dias de forma coletiva aos mais diversos veículos e pares. Cabe ao profissional da informação contar a história na minúcia que melhor convir a ele a ao veículo que representa. Fazer suítes simplesmente é observar por outro ângulo a história que foi contada com falhas ou apenas por cima. É preciso aprofundamento dos fatos quando o espaço na página do impresso ou na grade eletrônica permitir. Caso contrário, faz-se necessário apenas recontar, com conteúdo, a mesma história sob um novo olhar.

Quem está na redação tem que se obrigar a ler, ouvir, assistir os mais diversos veículos de informação. Criticar o fato, a notícia, a fala, a escrita, a dicção, a apresentação do material porque a crítica ao outro é muito mais uma autocrítica. Pense nisso. Reflita! Torne-se um jornalista melhor. Se você começou hoje pense grande, seja jornalista e ultrapasse a etapa onde todos os iniciantes eram chamados apenas de focas tendo como sobrenomes José, Maria, Antônio, Washington,Robson, etc., seus nomes de batismo!

segunda-feira, 22 de março de 2010

Carta ao Luverdense II


Mais uma vez a equipe da TV Conquista, chefiada por mim, jornalista Robson Fraga, foi impedida de trabalhar dentro do Etádio Passo das Emas, estádio do Luverdense Esporte Clube, em Lucas do Rio Verde. Logo no início do campeonato mato-grossensse, alguns jogadores foram impedidos pela diretoria de nos dar entrevista. Por duas vezes nossa equipe não pôde filmar os treinos, embora caiba à imprensa divulgar a preparação da equipe bem como seus jogos. Afinal de contas, somos nós que trazemos à torcida um extrato do dia-a-dia dos clubes dentro de um campeonato.

No último domingo (21), num jogo onde o LEC venceu o Sinop por 1 a 0, o atacante Paulinho Marília foi impedido de nos dar entrevista. Quando estava posicionado para falar, um dos representantes da diretoria o tirou de cena como se esta agressão à imprensa fosse coisa natural. Parece-nos incomum que dirigentes de clubes de futebol tenham medo de críticas, pois como todos sabemos são elas que nos fazem abrir os olhos e enxergar novos caminhos. Mas sempre que alguém ousa emitir opinião contrária a dos dirigentes do Luverdense é recebido ou respondido com agressões verbais, destempero e ofensas.

É preciso mais uma vez lembrar que a liberdade de expressão está apregoada pela Constituição brasileira e que alegar desconhecimento da lei também é crime. Bem como ofensas verbais que podem ser enquadradas no código civil gerando processo contra os ofensores. É bom que se saiba que assédio moral também é crime e que nesse caso o ofendido está livre do ônus da prova, já que este tipo de agressão quase sempre é feita pelo agressor longe dos holofotes.

Quando tentávamos gravar entrevista com o atacante Paulinho Marília, que marcou o gol da vitória do LEC, apenas queríamos ouvir o que pensava o jogador, mas o mesmo foi impedido, de forma truculenta, de falar conosco enquanto para outras equipes de televisão, rádio e jornal, principalmente as que vêm de fora puderam trabalhar.

A opinião dos dirigentes não pode se sobrepor a dos jogadores. Sabemos que o time não tem nada a ver com estas agressões. São profissionais que cumprem ordens. Portanto, queremos relembrar aos dirigentes do clube: liberdade de imprensa é primordial na divulgação de qualquer time dentro dos mais diversos campeonatos de futebol do país.

Não sigam o exemplo de Eurico Miranda que por tantos anos dirigiu o Vasco da Gama, no Rio de Janeiro, avesso às leis, à liberdade de expressão e à lei de imprensa. Pode ser que no futuro a torcida não queira nem ouvir falar dos atuais gestores do Luverdense, como aconteceu com o ex-deputado do colarinho branco. A torcida do LEC merece ver cenas melhores dentro de campo e fora das quatro linhas.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Nas mãos do destino


A situação está insustentável. A sensação de insegurança vivida, hoje, pelos moradores de Lucas do Rio Verde é alarmante. De um a lado a polícia, que em todas as explicações diz que a situação é normal, embora todos os dias os boletins de ocorrência continuem registrando roubos, furtos, tráfico de drogas e outras mazelas sociais. Do outro lado, a imprensa que sempre cobra respostas para a sociedade e que não consegue; seja por omissão do poder público ou por que a PM não tem o que responder. Mas porque será? Será que falta verdade, comprometimento ou apenas efetivo policial, como comandante costuma a dizer!?

Sabemos que as polícias estão atuando. Mas nenhuma explicação dada até o momento justifica o excessivo número de ocorrências que são apresentados todos os dias. A sensação de insegurança continua tomando conta da população. Prova disso, são as inúmeras ligações que chegam às redações das TVs e jornais.

São moradores indignados com os furtos às residências que tomaram conta da cidade; roubos e furtos ao comércio, prostituição nas ruas, como é comum no bairro rio verde, e consumo aberto de drogas pelas ruas do mesmo bairro. Basta passar pela Rua Sarandi ou pela Avenida Bahia qualquer noite para ver menores e adultos fumando pasta base do cocaína e comercializando a droga abertamente, aos olhos de quem quiser ver.

Além disso, recebemos muitas ligações reclamando da demora da PM no atendimento às ocorrências ou pelo mau humor como os cidadãos muitas vezes são atendidos pela polícia.

E o que resta à população? Esperar sem ter respostas efetivas ou se acostumar em receber respostas prontas e ineficazes? Até quando vamos continuar convivendo com tanta insegurança na cidade de Lucas?

Não queremos saber de quem é a culpa, queremos apenas ver a cidade limpa e poder voltar a sentir orgulho de viver em qualquer bairro de Lucas do Rio Verde.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Carta ao Luverdense

O que se espera de um time de futebol, no início de um campeonato, é no mínimo comprometimento com grupo que representa, seus patrocinadores e, principalmente, com a torcida. De nada adianta vestir uniforme, calçar chuteiras, entrar em campo e não dizer a que veio. É preciso ser aguerrido, preparado, disposto, incansável, voraz e corajoso para se manter um escudo sobre o peito.

Iniciar um campeonato de forma apática, sem compromisso, simplesmente cumprindo obrigação, é desrespeito, ironia e falta de vergonha. O primeiro jogo tem que ser levado como a decisão, pois como bem dizem “a primeira impressão é a que fica”. Erros hão de acontecer, por cansaço, falta de treinamento, indisposição física – ainda que imperdoável, mas... Agora, passear em campo, assistir o jogo de dentro dele e deixar o tempo correr ao sabor do vento... isso não dá. Principalmente jogando em casa! Cadê o profissionalismo, o amor à camisa, o respeito ao torcedor?

Pior ainda é chegar ao segundo jogo, na casa do adversário, e novamente ser apenas coadjuvante. Campeonatos estaduais são vitrines para times, jogadores, mas, sobretudo, para a região, o município representado por cada equipe. É preciso chegar ao campo do oponente como um soldado: disposto a enfrentar e vencer a batalha. Futebol é isso: sangue, suor e lágrimas choradas de cansaço por ter lutado até o fim.

É certo que os campeonatos estaduais estão apenas começando, mas é preciso lembrar que cada passo é um degrau rumo ao topo do pódio. Que os erros de hoje podem representar um medíocre lugar na tabela e jogar por terra todo o empenho da diretoria, dos patrocinadores e da torcida durante todo um campeonato. É preciso ter atenção, amor, mostrar técnica, qualidade e emoção. Jogar na ponta dos cascos com cuidado, destreza, ambição e certeza de que se é capaz de chegar à última partida como favorito presenteando todos aqueles que fizeram parte da escalada com a faixa de campeão.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Jornalismo 2.0



O jornalismo 2.0 é novo e como tudo o que nasce traz o frescor da mudança, com promessas de prosperidade e muitas incertezas. Dizer que sabemos onde essa onda gigante vai desembarcar é chover no molhado. É bom admitir logo: somos ignorantes!

Mesmo assim, podemos vislumbrar, imaginar, conhecer e principalmente deixar o novo chegar e derrubar nossas certezas. Ninguém é dono dessa verdade. O conhecimento agora é de domínio publico, não pertence a ninguém e ao mesmo tempo é de todos nós!

Esta CARTA DIGITAL DE ITU pretende alinhavar princípios, organizar conceitos, coletar experiências, fomentar idéias e propor um caminho colaborativo que, assim como o jornalismo 2.0, está sempre vivo e em constante mudança.

Elaboramos, portanto, as primeiras palavras e intenções. Uma pedra fundamental, não a verdade absoluta. Queremos inspirar em vez de ditar regras. Até porque estamos falando de um novo mundo, do qual alcançamos uma pequena parte. Há muito ainda para ser mapeado e inúmeras questões para serem resolvidas. A palavra jornalismo pode ser a mesma, mas seus significados são radicalmente diferentes. E vamos aprendendo enquanto navegamos!

Princípios & Conceitos

- Autoria colaborativa: é feito por todos e para todos. Um parágrafo escrito por você pode ser linkado e relacionado a outras pessoas, conceitos e páginas, incorporando dezenas ou centenas de autores.

- Perenidade: a notícia não morre, os fatos nunca estão consumados, estão sempre vivos.

- Não precisa de grandes corporações intermediárias: pode acontecer de cidadão para cidadão

- Exige uma mudança de atitude: menos poder e mais talento

- Está apoiado mais nos relacionamentos do que nos conteúdos: quem tem uma boa rede vai mais longe.

- Interação direta com o leitor: quem me lê não está lá, está aqui!

- Interatividade: um jornalismo que interage 24 horas por dia com as mídias, pessoas e conteúdos relacionados.

- Humanidade: em vez de “usar fontes”, interage com pessoas.

- Conexão: um jornalista 2.0 não está mais sozinho; tem a rede junto com ele.

- One-to-One: esqueça respostas padrões ou automáticas.

- Velocidade: tempo real na rede.

- Poder descentralizado: o detentor da informação se transforma em divulgador da informação.

- Afinidade: não temos mais reféns, temos fãs!

- Ética: liberdade pede mais responsabilidade. O jornalista 2.0 tem o poder da escolha.

- Profundidade: a informação é de domínio público. A qualidade da informação depende de cada um.

- Aprendiz: o jornalismo 2.0 é aprendiz em sua essência.

- Desapego: é mais saudável compartilhar do que dominar.

- Pensamento hiperlinkado: diferenciando o essencial do periférico.

- Descompressão: A informação não precisa mais ser comprimida. Ela se torna ampliada e ampliável.

Tags do Jornalismo 2.0

fórum – posts – depoimentos – comunidades – rede social – mídia social – mural – links – hipermídia – chat – twitter – coletivo - tag feeds – RSS – indexação – Ajax – Mashup – mente aberta - UGC podcast – dowload – fórum - Meme - blogesfera – blog – sms

Esta carta foi produzida no evento Jornalismo 2.0 em Itu, com a coordenação e edição de Deborah Dubner e participação de: Alan Dubner, Anicleide Zequini, Armênio Guedes, Cadu Lemos, Camila Bertolazzi, Carlos Piazza, Deborah Dubner, Fabio Steinberg, José Marcio Mendonça, Manoel Fernandes, Marcelo Coutinho, Mylton Ottoni, Olga Sodré, Pollyana Ferrari, Roberto Mayer, Rodrigo Azevedo e Rodrigo Tomba. Fotos: Valéria Bertolazzi / www.itu.com.br

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Treinamento antigafe



Por Vinícius Queiroz Galvão

O novo foco em formação profissional vai além do tradicional curso de atualização. Cada vez mais preocupadas com a imagem, empresas de diversos ramos - e até o governo - têm investido no "media training", que ensina os profissionais a lidarem com a imprensa e a se sairem bem em entrevistas.

O jornalista Nélson Lemos, que trabalha com "media training" e já treinou alguns ministrosA nova aposta pretende evitar situações de saia justa como a provocada pelo ministro José Graziano (Segurança Alimentar), que, em fevereiro, vinculou a violência urbana em São Paulo à migração de nordestinos. "Temos de criar emprego lá, temos de gerar oportunidade de educação lá, temos de gerar cidadania lá, porque se eles continuarem vindo pra cá, nós vamos ter de continuar andando de carro blindado", afirmou na época.

As Câmaras Municipais de Recife e de Fortaleza aprovaram moções de repúdio contra o ministro, considerando-o persona non grata. O Senado chegou a pôr na pauta de votação uma reprimenda a Graziano, que acabou sendo retirada.O Planalto, então, criou uma divisão de "media training" só para habilitar ministros e funcionários do alto escalão a darem entrevistas. "O 'media training' é importante e ajuda a criar um melhor diálogo com a imprensa", diz Graziano, um dos primeiros a serem treinados no governo.

Não foi só o governo que esteve nas páginas dos jornais pela saia justa causada por erro na comunicação. O time do Palmeiras passou por um mal-estar em junho, quando os jogadores ficaram dias sem falar com a imprensa, depois de alguns atletas terem negado as declarações de insatisfação com o técnico Jair Picerni que tinham sido publicadas.

Segundo as assessorias de imprensa, o principal objetivo do "media training" é preparar as pessoas para o relacionamento com a mídia."Da mesma forma que as pessoas se preparam para reuniões e apresentações de negócios, também devem se preparar para dar uma entrevista. O executivo tem de saber como lidar com a frustração de, depois de dar uma entrevista de uma hora, não ler o resultado desejado no dia seguinte", diz a jornalista Ana Julião, cuja assessoria já treinou profissionais de organizações como Bradesco Seguros, AmBev, Telefônica Celular e Petrobras.

Uma pesquisa da Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial) revela que as cem maiores empresas brasileiras já fizeram "media training" com seus diretores. "Hoje, uma empresa e seus representantes não podem ser analfabetos em comunicação. Existe uma necessidade cada vez maior de as pessoas se habilitarem nessa área", diz Paulo Nassar, diretor-executivo da Aberje.

"Já trabalhei com diretores de empresas que criavam dificuldades para se relacionarem com a imprensa e hoje compreendem a importância de ter um bom relacionamento", diz o jornalista Nélson Lemos, que treinou os ministros José Graziano, Luiz Gushiken (Comunicação de Governo) e Jaques Wagner (Trabalho e Emprego).As empresas chegam a pagar R$ 20 mil por um dia de curso para até cinco pessoas, investimento que inclui treinamento com repórteres em atividade em telejornais, com direito a estúdio e cinegrafista.

O "media training", no entanto, não ensina apenas a falar com poder de síntese ou a olhar diretamente para a câmera. O conteúdo dos cursos ensina truques para conduzir uma entrevista e indica como agir diante dos repórteres e como usar estatísticas e gráficos como dados, entre outros temas. Os treinamentos sempre têm exercícios práticos, em que se fazem simulações de entrevistas."Hoje, podemos dizer que nossos porta-vozes estão preparados para qualquer entrevista, além de serem mais didáticos, já que nosso negócio — mercado de satélites — é muito específico", afirma Cláudio Baptista, gerente de marketing da Star One, empresa de telecomunicação do grupo Embratel.

O "media training" não se restringe a corporações. A Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) distribui para seus profissionais uma cartilha com dicas para que professores e médicos possam ter um bom relacionamento com a imprensa. Ironicamente intitulado de "Corra que a Imprensa Vem Aí", o manual aponta gafes cometidas e dá dicas sobre a melhor forma de atender um repórter.

Hospitais também aderiram ao treinamento. "O 'media training' foi importante para compreender que as informações devem ser passadas da forma mais leiga possível, concisa e pontual, pois o público em geral nem sempre entende os termos técnicos que nós usamos", diz o médico José Antônio de Lima, diretor do Hospital Samaritano.Para o jornalista e crítico de comunicação Alberto Dines, o "media training" quer se aproveitar das falhas da mídia. "O que eles querem é ensinar as empresas e o governo a tirarem proveito das deficiências e das mazelas da imprensa", diz.

Mayra Rodrigues Gomes, professora de ética e filosofia da linguagem do Departamento de Jornalismo da USP, concorda em parte. Mas também defende o treinamento. "Há jogada de mercado, eu concordo. Mas tem utilidade para o executivo se forem mostradas estratégias que são constantes, jogos de linguagem com que seja possível interferir na significação e, portanto, direcionar a leitura para um lado ou outro", afirma
.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Jornalismo com Ética



Pensar a ética jornalística no dia-a-dia das redações é antes de tudo cobrar do repórter responsabilidade na apuração e redação dos fatos. Definir o que é notícia e mostrá-la de forma verdadeira e clara, deixando de lado todas as convicções partidárias à pauta para refletir no texto apenas o que foi apurado in loco. Caso esta regra clássica não possa ser cumprida é melhor deixar a pena de lado e a matéria apenas na cabeça de quem a pensou. No jornalismo ético só há lugar para opiniões em colunas, artigos e editoriais.

No livro “A Reportagem: teoria e técnica de entrevista e pesquisa jornalística”, Nilson Lage mostra os efeitos colaterais da “parcialidade” no jornalismo. “Quando os militares autorizaram a instalação de empresas de seguro-saúde no Brasil, a Golden Cross montou um setor de atendimento aos jornalistas de onde partiam denúncias contra os hospitais públicos. Julgando estar prestando um serviço e combatendo a ditadura, vários jornalistas acabaram ajudando a empresa naquele início difícil dos “negócios” quando o atendimento público de saúde ainda tinha uma imagem boa.”

Outro caso que precisa ser analisado sob o ponto de vista ético é a entrevista concedida pelo jornalista Dan Rather, principal âncora da rede americana de televisão CBS, ao programa de David Letterman (26/01/01). Enquanto falava sobre os atentados terroristas de 11 de sentembro, quando Bin Ladem ordenou a destruição das torres gêmeas (World Trade Center) e do Pentágono, Rather chorou três vezes e se colocou a disposição do então presidente dos EUA George Bush: “Como americano, ele terá o que quer de mim.” O que dizer desta postura?

Já o jornalista Robert Fisk, um dos mais respeitados correspondentes no Oriente Médio, resenhou: “O mundo será levado a acreditar nos próximos dias que presenciamos uma luta da democracia contra o terrorismo; na verdade, os atentados têm muito a ver também com mísseis americanos caindo sobre lares palestinos; com helicópteros americanos jogando mísseis em uma ambulância libanesa em 1996; e com uma milícia libanesa – paga e uniformizada por Israel, o fiel aliado americano – cortando, estuprando e matando refugiados em seu caminho. E com muito mais”.

Todo repórter/redator/editor que respeita a si e a profissão que abraçou precisa ser analítico. Não pode comprar "meias verdades" e nem acreditar em “embalagens”. Tem que investigar a fundo toda e qualquer informação. Uma pauta só é resolvida quando todos os porquês são respondidos de forma satisfatória e não há mais dúvidas no ar. Isso é jornalismo ético e sério.

Luiz Garcia, editor de opinião do jornal O Globo, ensina: “Um homem público acusa outro de um delito qualquer. E temos a infantil ingenuidade de achar que o problema se resolve ouvindo o outro lado. Fulano diz que Beltrano é ladrão de galinhas – e Beltrano nega. É uma postura preguiçosa, que contribui para a impressão de que a imprensa brasileira é viciada em denuncismo. Nossa obrigação não é simplesmente ouvir os dois lados, e sim apurar o que há de verdade na história. Inclusive, se for o caso, para concluir que não há história”.

“O senhor não chamou o meu procedimento de desumano, pelo contrário, de acordo com sua percepção mais profunda, o senhor o considera o mais humano, o mais digno de todos, o senhor também admira este maquinismo”, diz o personagem de Franz Kafka (Na Colônia Penal), ao visitante encarregado de opinar sobre o cruel sistema de punição ao condenado sem qualquer direito de defesa.

É hipocrisia criar uma ética particular para justificar qualquer ato de nosso interesse. Segundo Maquiavel, “é ético o que interessa ao bem comum e não o que interessa meramente ao príncipe”. Acredito ser esta a linha mestre a ser seguida nas redações. Ética, honestidade e trabalho sério “não devem ser adjetivos ou penduricalhos gramaticais na vida do profissional de comunicação”, mas prática diária do jornalista.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Assessoria de Imprensa

Os Estados Unidos talvez sejam o país que mais investe em assessoria de imprensa governamental. Há um verdadeiro aparato técnico-profissional para informar o que faz o governo: quais suas idéias, projetos e ações, bem como para reafirmar seu poder e corrigir erros e distorções na comunicação externa. Veja como funciona esta importante engrenagem.

"Distribuíamos textos sobre tudo", diz a ex-secretária de imprensa da Casa Branca Dee Dee Myers. Durante o primeiro mandato do presidente Bill Clinton, continua ela, a assessoria de imprensa da Casa Branca distribuía aos repórteres não apenas textos de discursos, resoluções e coletivas de imprensa como também press releases, informativos, informações de referência sobre políticas, notas à imprensa sobre novos eventos, resumos de discursos e documentos políticos, análises dos pontos mais importantes de um documento e assim por diante.

"Repórteres são pessoas ocupadas, principalmente aqueles que cobrem chefes de Estado e outros líderes de governo", explica ela. "O volume de material que eles têm de cobrir é impressionante." Fornecer material impresso ajuda bastante. Resumir e distribuir material na forma impressa ou on-line significa não precisar depender da compreensão correta de um discurso ou uma declaração. Também proporciona ao porta-voz uma outra oportunidade de reafirmar os pontos principais, diz Myers.

Nos Estados Unidos, sempre que possível, as assessorias de imprensa redigem e distribuem à imprensa, em papel ou pela internet, declarações, políticas, ações e planos. Isso tem várias utilidades:

  • Ajuda as autoridades do governo e os assessores de imprensa a definir claramente o que querem dizer e a refinar sua mensagem.
  • Aumenta as probabilidades de que a mídia entenda as informações corretamente, reduzindo as más interpretações.
  • É algo que os repórteres podem consultar quando estiverem redigindo suas matérias.
  • Evita ter de responder às mesmas perguntas várias vezes porque as informações básicas são fornecidas.
  • Estimula a elaboração de perguntas mais pertinentes, baseadas em fatos, por parte da mídia.
  • Aumenta as chances de que a matéria saia com a ênfase desejada.

Fornecer resumos e análises com uma declaração ou um discurso também possibilita à assessoria de imprensa reafirmar sua interpretação das notícias.

Nos Estados Unidos, as comunicações escritas assumem muitas formas. Além disso, as assessorias de imprensa têm diversas ferramentas - visuais e orais - para se comunicar com o público por meio da imprensa. Algumas das ferramentas de comunicação mais comuns são:

ilustração

Press release, que é redigido como um artigo de jornal e às vezes utilizado como texto de artigos jornalísticos por algumas publicações. Press release é a narrativa de uma notícia em uma ou duas páginas. Deve informar quem, o quê, onde, quando, por quê e como no primeiro parágrafo, como em uma reportagem jornalística. O press release deve seguir o estilo de uma pirâmide invertida, citando as informações por ordem de importância de modo que os editores possam identificar facilmente os fatos principais. A informação-chave corresponde ao topo da pirâmide e as notícias menos importantes, à base.

Nota à imprensa, que é semelhante a um press release, mas preparada para anunciar um evento futuro, de modo que a mídia possa avaliá-lo rapidamente e decidir se deve relatá-lo ou não. A nota à imprensa também deve incluir quem, quando, onde, por quê e como. Deve ocupar apenas uma página.

Informativo ou histórico, que é um press release expandido com informações detalhadas sobre um assunto. Utiliza fatos e estatísticas, mas geralmente não faz citações e é distribuído junto com o press release. Estendendo-se por quatro ou cinco páginas, o informativo ou histórico deve ser fácil de ler e utilizar marcadores ou negritos para cada fato novo.

Ilustrações como fotos, gráficos, quadros e mapas que acompanham os press releases.

Biografia, que é fornecida com o press release. A biografia resume o histórico profissional e as realizações de uma pessoa que está sendo indicada para um novo cargo, apresentando um discurso ou participando de um evento.

Uma lista de especialistas para reforçar sua mensagem. A lista deve incluir nomes e números de telefone.

Outros textos, que podem incluir todos os tipos de material. Na Casa Branca, por exemplo, as transcrições de comentários do presidente e de informes diários do secretário de imprensa e de outros assessores são fornecidas à mídia logo após a realização dos eventos. Resoluções, declarações, anúncios de indicações e nomeações de funcionários, cartas de especialistas ou de associações profissionais em apoio à legislação proposta e outros tipos de correspondência de e para o presidente também são distribuídos diariamente à imprensa.

Clippings, que mostram essencialmente as "boas" reportagens que foram publicadas. Os assessores geralmente tiram cópias de artigos jornalísticos favoráveis a eles e as colocam em kits para a imprensa junto com outros materiais.

Perguntas, que às vezes os assessores fornecem aos repórteres para aguçar seu interesse em um tópico. Também é possível redigir algumas perguntas para os entrevistadores fazerem a um assessor. Perguntas imaginativas despertam a curiosidade.

Kits Press, que contêm vários itens sobre um determinado tópico. Os itens são inseridos em uma pasta que tem dois bolsos internos para guardá-los. No caso da inauguração de uma nova escola, por exemplo, o kit para a imprensa pode incluir:

  • Uma pasta com o logotipo da escola na capa e duas abas internas para guardar material impresso.
  • Uma nota à imprensa com detalhes sobre a hora e o local da inauguração, bem como sobre sua importância.
  • Um press release com detalhes específicos da inauguração, informações gerais e citações de autoridades importantes sobre a escola.
  • Um histórico para a mídia com estatísticas e fatos detalhados, como dados específicos sobre a construção, número de alunos que freqüentarão a escola, etc.
  • Biografia dos oradores do evento.
  • Ilustrações, como fotografias da escola.

Sugestão de pauta, que resume a idéia de uma matéria em um parágrafo e explica por que os leitores - ou expectadores - se interessarão por ela. A sugestão de pauta ou o telefonema fornece detalhes, cita nomes, descreve oportunidades fotográficas e resume o conceito da matéria.

Press releases em vídeo e áudio, que informam quem, o quê, quando, onde, por quê e como, assim como o press release impresso, mas são apresentados como uma reportagem de rádio ou televisão. As emissoras podem usar todo o material ou parte dele em uma matéria jornalística para rádio ou televisão e identificar o material como proveniente de uma fonte de relações públicas. O press release em vídeo deve ser apresentado em trilhas de áudio separadas, com o narrador em uma trilha e os trechos de falas e sons naturais em outra para facilitar a edição do som.

Tecnologia por satélite, que permite reunir-se com a personagem da notícia ou entrevistá-la e transmitir as imagens ou a notícia para as estações de televisão de todo o país. Essa tecnologia proporciona um tour de imprensa sem gastos com viagens nem perda de tempo. Em geral, os especialistas em informação pública gravam um evento e então compram tempo do satélite para transmiti-lo. Para isso, é necessário um estúdio que possa transmitir imagens e sons ao vivo e possa dar aos repórteres da televisão a oportunidade de fazer perguntas por telefone enquanto se grava a autoridade dando as respostas. As estações precisam ser notificadas de quando a transmissão por satélite estará disponível e como acessá-la.

Sonora, que é a gravação em áudio de uma autoridade do governo fazendo uma pequena declaração, como se estivesse em uma entrevista real. Alguns políticos norte-americanos gravam declarações diariamente em horários regulares e as transmitem diretamente aos repórteres ou fornecem a eles o número de uma secretária eletrônica que contém a declaração. Para isso, é necessário um gravador de boa qualidade conectado a um telefone. O material também pode ser colocado na web para transferência por download.

Linha Privada, que pode ser utilizada para gravar a agenda diária de uma autoridade governamental para referência.

Coletivas de imprensa, nas quais os assessores anunciam notícias sobre determinado assunto. Para serem eficazes e dignas de crédito, as notícias devem ser oportunas e genuínas.

Entrevistas, que dão aos assessores uma chance de falar com um repórter, em geral diretamente, e expor suas idéias de uma maneira mais profunda do que em uma coletiva de imprensa.

Conselhos editoriais, que são reuniões entre a personagem da notícia e o editor da página de editorial de um jornal, editorialistas, articulistas e repórteres de seções de notícias para discutir um tópico. As principais redes de televisão e TV a cabo também fazem reuniões similares. O conselho editorial pode dar a uma autoridade governamental a oportunidade de explicar mais claramente suas idéias, o que pode levar a mídia a compreender melhor as políticas do governo e quase sempre resulta em reportagens jornalísticas e editoriais.

Reuniões off the record, nas quais os assessores se reúnem com os repórteres para fornecer informações básicas ou contexto para tópicos de interesse jornalístico.

Artigos e colunas que as personagens das notícias utilizam para expressar suas opiniões. Alguns políticos redigem uma coluna semanal para expressar suas opiniões diretamente para o público.

Discursos, que são utilizados para promover políticas, revelar novos programas, explicar posições e obter consenso. Cópias de discursos são fornecidas à imprensa antecipadamente e enviadas a jornalistas interessados que não podem comparecer a um evento da mídia. Colocar discursos na internet também ajuda. Se possível, ao distribuir um discurso, comece com um resumo do material para dar aos repórteres uma sinopse do tema principal. Guarde sempre uma lista das pessoas para quem o material foi enviado.

Tours de imprensa, que vão além da capital e alcançam a mídia regional. Os tours de imprensa devem fornecer à imprensa local notícias relacionadas com a sua região e explicar como os cidadãos serão afetados pelas políticas do governo.

Features, que contam uma notícia de uma forma mais leve. Os especialistas em informação pública não se baseiam apenas nas seções de notícias importantes da imprensa quando redigem seus artigos, mas usam os features e outras seções também.

Internet, que é um meio de se comunicar diretamente com o público sem o filtro da mídia. A rede também proporciona rápida comunicação com os repórteres. Além disso, a internet possibilita o vai-e-vem de mensagens entre as autoridades governamentais e o público. As assessorias de imprensa podem estabelecer seus próprios boletins eletrônicos locais. A internet tem de tudo: texto, imagens, vídeo e som. As assessorias de imprensa do governo também utilizam a rede para encaminhar os usuários a um grande número de documentos originais on-line. Para ser eficaz, o site precisa ser atualizado com freqüência.

E-mails que incluam endereços eletrônicos de grupos de modo que, com um simples comando do teclado, as informações são facilmente transmitidas para diversas pessoas interessadas.

Fotográfias ou photo ops, que permitem a um assessor tirar uma foto com outros cidadãos, como os ganhadores de um prêmio, para enviar ao jornal da cidade natal dessas pessoas para publicação. Ao tirar uma fotografia e enviar pelo correio, não se esqueça de identificar as pessoas na foto e o evento.

O material disponível para a imprensa pode ser de interesse somente para alguns repórteres. Na sala de imprensa da Casa Branca, por exemplo, os jornalistas normalmente lêem e depois devolvem o press release porque não vêem relação com o que estão cobrindo. Mas é importante que ele esteja disponível para os que desejam e precisam dele.

Como Lidar com a Mídia?

O que fazer

  • Diga a verdade - SEMPRE.
  • Seja honesto e preciso. Sua credibilidade e reputação dependem disso.
  • Reconheça quando não souber a resposta a uma pergunta. Se ofereça para obter a resposta e faça isso o mais rápido que puder.
  • Corrija erros imediatamente. Afirme que não deu uma resposta adequada e que gostaria de esclarecer a confusão.
  • Evite o uso de jargões. Fale em linguagem clara.
  • Suponha que tudo o que fala é on the record.
  • Seja o mais aberto possível com a mídia.
  • Ligue para os jornalistas caso uma matéria incorreta seja publicada. Aponte e comprove o erro educadamente.
  • Mantenha uma lista de realizações. Atualize-a com freqüência. As coisas acontecem com tanta rapidez que você pode esquecer o que você, a autoridade e seu ministério ou o governo realizaram.
  • Sempre retorne as ligações, ou peça que um assistente o faça, a tempo de os jornalistas cumprirem seus prazos.
  • Tente obter as informações que os jornalistas querem, mesmo que isso signifique um esforço extra, como ficar até tarde no trabalho ou entregar o material em mãos.
  • Tenha senso de humor.

"A frustração é quase sempre intrínseca à função", diz o ex-porta-voz da vice-presidência David Beckwith. "A menos que você tenha senso de humor, trata-se, na verdade, de uma atividade cruel."

O que não fazer

  • Não minta - JAMAIS.
  • Não diga "sem comentários" - JAMAIS.
  • Não improvise, não especule e não conjecture. Bons repórteres verificam os fatos. Se você estiver errado, sua credibilidade será destruída.
  • Não tente tornar "off the record" uma informação depois de já prestada.
  • Não deixe de colaborar.
  • Não crie notícias sem ter em mãos as informações necessárias. Não faça um anúncio e depois prepare o press release e os informativos. Se você tiver o material preparado antes de uma coletiva, poderá usar o tempo depois do anúncio para explicá-lo à imprensa.

Corrigindo Erros

Se suas declarações forem distorcidas em uma matéria ou se uma informação errada for dada, tome providências imediatamente. Converse com o jornalista. Não faça ameaças. Tenha fatos para fornecer e considere que tudo que disser para corrigir o erro será on the record. Se não conseguir nada com o jornalista, vá até o editor.

Você pode pedir retratação ou correção de um erro e muitas autoridades fazem isso. Mas outros acham que trazer a questão à tona somente mantém a informação errada no noticiário. Com a internet, no entanto, notícias incorretas podem ser acessadas continuamente. Por essa razão, solicitar uma correção é quase sempre o caminho a seguir. Na verdade, a atitude a ser tomada depende do erro e de sua gravidade. Mas, no mínimo, você deve contactar o jornalista e corrigir a informação errada ou a citação incorreta.

  • Não minta.
  • Não dissimule. Se você mentir ou encobrir um fato, você perde sua credibilidade.
  • Não evite telefonemas de jornalistas.
  • Reconheça o problema
  • Explique como está sendo corrigido.