segunda-feira, 11 de julho de 2016

Quem sabe faz a hora

- Ah, eu até queria a vaga, mas moro longe.
- Onde?
- A uns cinco quilômetros daí. Mas não tem ônibus direto, então...
- Só isso? Rapaz dá pra vir a pé!
- É... Mas eu teria que sair de casa bem mais cedo.

Assim terminavam as explicações daquele que durante uma semana tinha tomado o tempo de um contratante em busca de vaga. O candidato tinha feito de tudo pra conseguir uma entrevista, mas na hora H... Numa das conversas, chegou a pedir “por favor”, sob a alegação de que era arrimo de família.

-Seu Victor, me deixe fazer o teste preciso trabalhar. Sou eu quem sustento minha mãe e ajudo a criar dois irmãos. Estou desempregado há quase um ano, vivendo de bicos. Deixa eu tentar, por favor?

Não dá mesmo pra entender. Em 2013, todos os dias os noticiários contavam da crise econômica e dos milhões de brasileiros desempregados. Gente diplomada tentando vagas em outras áreas abaixo de suas qualificações e aquele cidadão se dando ao desfrute.

O setor das comunicações enfrentava uma crise daquelas e ainda assim uma emissora paulistana tentava a todo custo contratar jornalistas. Tinha colocado anúncios em jornais, carros de som e nas redes sociais. Um deles dizia: “Vaga para jornalista, mesmo sem experiência. Salário de R$ 1.800: 20% acima do piso regional + benefícios. Jornada de 30h semanais”. Mesmo assim, não aparecia ninguém.

Olha que não se tratava de uma emissora minúscula, mas da maior do interior paulista com transmissão para cerca de trinta municípios da região de Ribeirão Preto, a Califórnia brasileira como costumam dizer empresários e moradores locais. Uma empresa com total infraestrutura, equipamentos de ponta, benefícios compatíveis com os repassados aos colaboradores pelas grandes rádios da capital.

Intrigado, o diretor de jornalismo se perguntava o que estava faltando. Não entendia o porquê de tanta recusa, naquela ocasião o emprego oferecido era uma bocada! Várias vezes ele se pegou pensando nas dificuldades que havia enfrentado para se formar no curso de jornalismo e por mais que tentasse entender toda aquela situação não tinha jeito.

Aos dezoito anos, Victor saía de casa às 4h30 da matina e só retornava por volta da meia-noite. Servia à Marinha do Brasil e cursava jornalismo numa universidade distante do local de trabalho e de sua residência. Passava mais tempo no trânsito e nos seus afazeres que com a família; não tinha tempo nem pra namorar. Em tom de desabafo, sem saber explicar ao patrão o porquê da vaga não ter sido preenchida depois de trinta dias de aberta resolveu contar sua história ao patrão.

- Sabe doutor, quando era jovem, acordava muito cedo. Engolia o café da manhã e corria pro ponto de ônibus pra não perder a condução e correr o risco de ficar preso no quartel por causa do atraso: o horário era rígido! Morava em Nova Iguaçu, servia na Ilha do Governador e estudava em São Gonçalo.

Atento, Rosevaldo Chagas ouvia aquele testemunho.

- De casa ao quartel eram 35 quilômetros. De lá pra faculdade outros 38 e da faculdade pra casa 57,6 contatos! Percorria todos os dias 261 quilômetros entre idas e vidas, trocando de coletivos, pra tentar ganhar a vida.
-Nossa!
- Pois é, não foi fácil chegar até aqui. Ai me vem um cidadão suplicando emprego com toda aquela conversa triste e no dia da entrevista liga dizendo que não tem mais interesse na vaga porque a empresa é longe demais? Ora bolas, de bicicleta o infeliz levaria cerca de dez minutos de casa até aqui. A pé no máximo 30, andando a passos de tartaruga!

No fim da conversa, Chagas não sabia o que dizer, mas começou a olhar diferente aquele funcionário. Ora bolas, pra estudar o cara passava cerca de seis horas por dia dentro de ônibus e agora estava a mais de 700 quilômetro de sua família pra fazer valer seu diploma e na conta ajudar a levantar o jornalismo da empresa.

Quando voltou pra casa naquela noite não perdeu tempo. Antes que o filho abrisse a boca pra reclamar mais uma vez de ter que acordar cedo pra estudar foi enfático.

- Júnior, meu filho, agora que já jantou vá escovar os dentes e cama.
- Mas, pai, não quero ir pra escola amanhã, tô cansado!
- Se você quiser ser alguém na vida, meu filho, vai ter que aprender a se esforçar. A vida é feita de dificuldades, meu caro, e pra tudo tem um preço. Trata de ir pra cama e agradecer por ter uma família que te dá casa, comida, educação e escola sem que você precise mover uma palha pra tudo isso. Eu não estarei aqui pra sempre, Junior.
- Mas pai...
- Vai pra cama, meu filho. Estude e aproveite as oportunidades da vida. Amanhã, quando estiver adulto, tiver sua família, filhos, amigos... vai poder servir de exemplo.