quarta-feira, 20 de julho de 2016

A vida como ela ainda é...

Todo dia era a mesma coisa. Quando João se preparava pra sair a mulher saia com aquela:

- Não vai não, fica comigo!
- Por que?
- Não quero ficar sozinha.

Parecia namoro. Tinha cara de romance de novela com muito beijo na boca. Mas que nada; nada pode ser tão perfeito assim num relacionamento a dois.

- Quer saber mesmo? Perguntava a mulher. Não tô te entendendo: toda vez que estou em casa você quer ir pra rua e quando estou na rua você quer me trancar em casa!
- Você deve ser maluca...
- Maluca é a sua mãe. Eu te conheço não é de hoje!

Discussãozinha besta mesmo, tipo das de casal moderno.

- Não sei onde quer chegar! Quando eu passava o dia inteiro com a bunda no sofá você me mandava procurar o que fazer. Agora que achei você reclama. Deve ser doida, só pode ser doida!!!

João e Maria estavam casados há vinte anos. Conheciam o outro mais que a si mesmos, mas nunca se entendiam. Um típico casamento contemporâneo onde os estranhos decidem juntar os panos e morar juntos. Convenção dos tempos modernos que nada tem a ver com casamento.

- Te conheço na palma da mão, dizia a esposa. Não sei o que tem na rua, mas só pode ser mulher...
- Você é louca. Faz um ano que estou desempregado. Não tenho um tostão... Estou cheio de dívidas... Como pode achar que tenho amante? Mulher gosta de dinheiro; de homem que paga as contas!
- Ah, meu filho, pra sacanagem sempre se dá um jeito. Homem é bicho safado, num presta! Te conheço na palma da mão. Trabalho é que não é. Faz dias que você não coloca um centavo em casa!

João era um nordestino daqueles que nunca gostou de dengo. Pra ele mulher servia pra cuidar da casa, dos filhos e pra lhe servir à noite na alcova. Um tipo machista que não aceita ajuda nem mesmo quando está na pior;  pelo menos é o que deixa parecer. Se não tinha trabalho fixo fazia bico. Se não tinha bico, ficava em casa esperando um chamado a qualquer momento. Estava sempre pronto a servir o primeiro patrão e nunca aceitou que sua mulher tralhasse fora. Era o homem da casa e sempre dava a última palavra.

- Por acaso algum dia saí com você e te deixei pagar a conta? Já mandei você trabalhar pra botar o que comer em casa?

A resposta vinha como foguete. Estava na ponta da língua.

- Deixar eu pagar as contas você nunca deixou, mas eu pago mesmo assim. Ou você acha que a energia está ligada e a água na torneira por obra do divino espírito santo? Por que será que eu passo o dia inteiro com a barriga naquele tanque, heim? Nunca achou estranho que o varal esteja sempre lotado? Desconfia sujeito!

- O quê? Você está lavando roupa pra fora e num me falou nada? Virou empregadinha sem eu saber? Tá doida? Que que vão falar de mim... Pior, o que já devem estar falando? Devo ter virado chacota e nem sei.

Por lá, a roupa suja era lavada no verbo também.

- Não sei porque tá nervosinho, quando te conheci você estava desempregado como agora, esqueceu? Meu tio tinha te colocado no olho da rua depois de descobrir que você tinha emprenhado a filha dele e num quis casar com ela. Mesmo assim eu caí na besteira de ficar contigo.
- Você é louca. Eu que larguei aquela uma porque não servia pra mim. Já tinha se deitado com todo mundo e o véio achava que a barriga dela era culpa minha. Ali não tinha nenhuma santa e você sabe disso; por isso ficou comigo!
- Isso num importa. Naquela época você não tinha dinheiro, tinha fama de mulherengo e mesmo assim eu caí na sua lábia, cachorro. Você era um duro como é agora. Dinheiro não é tudo não, meu filho.
- Mas agora é diferente. Eu sou um homem sério, trabalhador, pai de filhos, casado. Me respeita.
- E daí, deixou de ser homem? Passou a prestar?