quarta-feira, 27 de julho de 2016

E a tal da inspiração, de onde vem?

Era terça-feira, mas não uma terça qualquer. Aquela era especial. Afinal de contas, era dia de contar estórias. Naquela sala coral estavam reunidos os melhores aprendizes das letras. Tinha gente de Campos, de Nova Iguaçu e até da Bahia. Atentos, os novos escritores tentavam entender nas entrelinhas de Armando Nogueira como fazer de um texto uma crônica esportiva.

Nas prosas do craque tudo chamava a atenção: a bola, o gramado, os uniformes e a conversa alta dos meninos em um campinho da Baixada Fluminense. Cada palavra, atitude ou gesto usados por Armando precisavam ser atentamente observados pelos alunos da professora Edda, já que os elementos eram tijolinhos daquela construção literária. Estava tudo perfeito. Sentia-me como se ainda estivesse na sala da tia Marilda que durante o primário me convidava a navegar no mar da literatura brasileira. De repente, um barulho:

- Que que é pra fazer, Joana? Perguntava um certo funcionário da instituição que nos presentava com aquela oficina de prosa.

Teve gente que não se abalou e continuou vidrado nas crônicas do Armando. Mas eu, jornalista, sempre prezei pelo silêncio na hora de escrever e fiquei irritado. Como podia alguém interromper uma aula de forma truculenta e descabida? Ora bolas, um desrespeito sem tamanho! Aquele sujeito tinha atrapalhado nossa terça-feira especial simplesmente para retirar da sala uma lousa que seria usada num outro dia, por uma outra turma qualquer; não pela nosso seleto grupo de aprendizes!

De repente me veio à cabeça as aulas no Colégio Leopoldo. Lembro-me como se fosse hoje: ai de quem interrompesse a professora Marilda por um motivo tão banal. Seria logo taxado de mal-educado e convidado a se retirar. Ainda mais se o tema fosse crônicas esportivas de Fernando Calazans, Armando Nogueira ou Nelson Rodrigues. Todos craques da literatura contemporânea.

Passado o susto, voltei aos estudos e reli: a crônica é um texto em primeira ou terceira pessoa, escrito em prosa. Narrativo e descritivo, às vezes cronológico e quase sempre de teor contemporâneo. Muitas vezes usa da metalinguagem e sempre que possível abusa de outras figuras de linguagem. No bojo, são textos atuais.

Dei-me conta que a entrada triunfal daquele servidor do SESC não havia sido de todo ruim; na verdade não fora. Ao contrário, foi um grande presente do acaso. Relatar toda aquela situação era a inspiração que me faltava para escrever esta minha primeira crônica.