quarta-feira, 13 de julho de 2016

Namoro

A aula se encaminhava pro final quando, sorrateiramente, pintou um desafio: escrever um texto a quatro mãos. Ora, a duas já não era tarefa fácil imagine agora tendo que pensar junto com outro, dividir sentimentos, ideias, respirar e sentir pra acertar as linhas. Trabalho pra ninguém botar defeito!

Parecia início de namoro. Sabe quando você sabe que precisa sair da inércia e dar o primeiro passo mas fica esperando pelo outro? Era mais ou menos assim. Os olhares se encontravam na dúvida, os lábios se espremiam no medo de dar um palpite errado e as mãos, ah as mãos, queriam avançar, mas estavam presas na incerteza.

De repente as cadeiras se aproximaram, os olhares expulsaram o medo e as bocas se abriram pra primeira ideia.

- Já que está difícil começar o texto, vamos falar desta dificuldade.
- Ah, não, isso seria óbvio demais!
- Mas como assim, nem me conhece e já está dizendo que sou previsível?

Mulheres, ah, mulheres, complicadas, mas perfeitinhas. Sem perceber ela acabara de ditar o tema da crônica: relacionamento. Nada melhor pra expressar ‘dificuldades’ que os relacionamentos humanos. São como estórias perfeitas: têm início, meio e fim; e assim são os textos. Como no namoro, primeiro a gente decide sobre o que falar. Depois se põe à disposição, dá um chute na timidez e cospe de uma ou outra forma o que está preso no peito.

Estava posto então o primeiro ensinamento da oficina e certamente o objetivo daquela proposta indecente de texto a quatro mãos: escrever é transpirar, organizar as ideias... se debruçar sobre o novo pra dominar o desconhecido. Nada diferente do primeiro dia de namoro.